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fev 01

INSTITUIÇÕES DE ISRAEL: PARA CONHECER, COMPARAR E REFLETIR

instituições de israel

INSTITUIÇÕES DO ANTIGO ISRAEL: UM OLHAR PARA ANTIGOS COSTUMES –

Parece meio fora de propósito falar em “antigo Israel”, quando isto, certamente, importa em voltar aos séculos XV ou XIV antes de Cristo. Apenas parece. Na verdade, quando se fala do “antigo Israel”, quer-se chamar a atenção para o modo de vida adotado pelo assim denominado “povo de Deus” que, por diversas formas e mensageiros, seguia um itinerário seguro, capaz de conduzi-lo a prosperidade cada vez maior, seja a nível social, familiar ou mesmo religioso.

Fui buscar na obra Roland de Vaux (1903-1971)[1] – Instituições de Israel no Antigo Testamento – de 1957 e recentemente reimpressa (2014) pela Editora Vida Nova, o conteúdo essencial para uma boa compreensão acerca de tudo o que a humanidade vem enfrentando, em decorrência, não da substituição dos hábitos e dos costumes, mas, infelizmente, do total abandono de tudo o que foi construído durante séculos, como modus vivendi sensato, digno, valoroso, virtuoso e capaz de atravessar o fenômeno do tempo, sem impor as grandes derrotas que a civilização moderna tem sofrido, seja no campo social, político, militar, humanitário, familiar ou religioso. Não se pretende, aqui, afirmar que tudo deveria, ainda, ser como o foi no passado. Mas, evidentemente, o leitor e a leitora atentos, logo irão perceber que a total ausência de coerência, de sensatez e de critérios faz da sociedade pós-moderna o alvo principal de tudo o que de pior lhe possa acontecer, ante a absoluta ausência de paradigmas comportamentais com o passado. É o destruir tudo para deixar nada no lugar. Não parece estarmos tratando de evolução, de modernização ou de aprimoramento mas, de profunda e inconsequente devastação.

De Vaux traz para nós o modo como eram constituídas e organizadas as tribos. Inclusive, no tocante à forma de governar. Vai tratar das leis que disciplinavam a hospitalidade e o asilo; as questões relativas à solidariedade e à vingança de sangue; o nomadismo. Vai revelar a forma pela qual instituições como a família, o casamento, a situação da mulher, dos filhos e das viúvas era tratada e enfrentada nos diversos desafios. Vai demonstrar como eram tratados os aspectos relativos à herança e à sucessão, assim como a morte e os ritos fúnebres. Tudo isso, mais a constituição e o funcionamento das instituições civis, militares e religiosas, numa vasta obra de 622 páginas, das quais traremos apenas pequena fração, na certeza de o leitor e a leitora, talvez, possam se interessar em adquiri-la nas melhores livrarias religiosas país afora.

Neste primeiro momento, apenas o preâmbulo da obra:

“Os antepassados dos israelitas, e os próprios israelitas no princípio de sua história, levavam uma vida nômade ou seminômade. Depois de sua sedentarização conservaram traços de seu primeiro modo de vida. Um estudo das instituições do Antigo Testamento deve considerar, primeiramente, este estado social pelo qual passou Israel. O estudo é delicado, pois as tradições sobre as origens do povo foram, até certo ponto, sistematizadas na Bíblia. Conservam, no entanto, muitos elementos antigos que são altamente interes­santes. Pode-se também explicar a organização primitiva de Israel comparan­do-a com a daqueles povos nômades que lhe são afins, seja pelo lugar onde habitavam, seja pela raça: os árabes de antes do Islão, conhecidos através dos textos, e os árabes de nossos dias, que têm sido objeto de estudos etnográficos. Em todo caso, é necessário guardar-se de comparações precipitadas que esquecem certas diferenças essenciais. Efetivamente, mesmo restringindo-nos ao Oriente Médio, o nomadismo revestiu e reveste hoje - por quanto tempo ainda? - formas muito variadas.

1 - O grande nômade, o verdadeiro beduíno - palavra que significa “homem do deserto” - é um criador de camelos. Pode morar ou, pelo menos, atravessar as regiões propriamente desérticas, que recebem menos de 10 cm de chuva anualmente. Ele transuma por longos percursos e tem poucos contatos com os sedentários.

2 - O criador de ovelhas e cabras é também um verdadeiro nômade, mas seus rebanhos são mais fracos, têm necessidade de beber mais frequen­temente e exigem um alimento mais selecionado. Ele vive, sobretudo, em zona subdesértica, entre as isoietas de 10 e 25 cm, e suas transumâncias são mais curtas. Quando os deslocamentos são consideráveis, estão sempre ligados a percursos que passam por aguadas bastante próximas entre si. Está em contato muito mais frequente com os países sedentários, em cujo limite apascenta seus rebanhos.

Quando à criação do gado miúdo se acrescenta a do gado bovino, então o pastor deixa de ser um verdadeiro nômade. Ele se estabelece, começa a cultivar a terra e a construir casas. Contudo, pelo menos no inverno e na primavera, uma parte do grupo fica ainda na tenda com os rebanhos. Segundo a força dos laços com o solo, ele é seminômade ou já um semi-sedentário.

Existem, entre esses grandes grupos sociais, estados médios e formas híbridas. Uma tribo cameleira pode ter também rebanhos de ovelhas, e mesmo terras no limite de suas transumâncias, ou oásis que cultiva mediante servos.

Nem os israelitas nem seus ancestrais foram verdadeiros beduínos, cria­dores de camelos. Seus antepassados eram criadores de gado miúdo e quando os encontramos na história, os patriarcas já estão em vias de sedentarização. Este é um primeiro ponto que limita as comparações com os beduínos estuda­dos pelos etnógrafos. Os estudos destes também tiveram como objeto tribos dedicadas à criação de ovelhas e que começam a fixar-se em um lugar. Estas representam o mesmo tipo social que os primeiros grupos israelitas. A compa­ração, neste caso, é mais válida. Mas existe uma outra diferença. Os criadores modernos, seminômades ou semi-sedentários, são antigos grandes beduínos que limitaram suas transumâncias e se sedentarizaram pouco a pouco. Conser­vam ainda a lembrança e certos costumes da vida livre do grande deserto. Os israelitas não conservaram tais lembranças porque nem eles nem seus antepassados levaram uma vida semelhante, e porque não existia, em seu tem­po, uma verdadeira “civilização do deserto” que impusesse seus costumes: o deserto era, a seus olhos, o refúgio dos fora-da-lei, esconderijo de salteadores, morada dos demônios e dos animais selvagens. Voltaremos ao tema ao dis­cutir o chamado “ideal nômade” do Antigo Testamento.

Contudo, é certo que os israelitas e seus antepassados viveram, durante certo tempo, uma vida nômade ou seminômade no deserto. Ora, esta vida impõe estruturas sociais e comportamentos particulares, e isso justifica que se tome como ponto de comparação, com as devidas reservas, a organização e os costumes dos árabes nômades.

No deserto, a unidade social deve ser, por um lado, bastante restrita para permitir a movimentação, e, por outro, bastante forte para garantir a própria segurança: isto é a tribo. No deserto, um indivíduo separado de seu grupo pode contar totalmente com a acolhida dos grupos que encontra em seu cami­nho ou aos quais se agrega. Qualquer um pode ter necessidade de tal ajuda e todos devem prestá-la: este é o fundamento das leis de hospitalidade e de asilo. No deserto, finalmente, onde não há nem polícia nem justiça superiores às tribos, o grupo é solidário no crime e no castigo: é a lei da vingança de sangue. E necessário que nos detenhamos um pouco no estudo destes três fatos sociológicos que parecem ser os mais característicos do nomadismo.”[2]

___________________________________________________ [1] DE VAUX, Roland – INSTITUIÇÕES DE ISRAEL NO ANTIGO TESTAMENTO – São Paulo. Vida Nova: Reimpressão 2014. 622 páginas. [2] Op. Cit. págs. 21-22.

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