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Sementes da Palavra, É tempo de semear

Arquivo por categoria: TEMAS DIVERSOS

set 07

EDITORIAL SEMANAL: A ÉTICA COMO VIRTUDE

SÓCRATES -2020

SOMOS ÉTICOS POR CONVICÇÃO OU POR CAUSA DA COERÇÃO LEGAL OU SOCIAL –

*Por L. A. de Moura –

O tema que hoje apresentas para o nosso costumeiro debate, é por demais instigante, haja vista estar entranhado no cotidiano de todas as pessoas, diríamos, de bem: a ética. E, como sempre, mantendo o teu estilo provocativo, questionas se pretendemos elevar a ética em decorrência de uma convicção própria, ou se, por outro lado, fazemo-lo em razão de certa “coerção” advinda da sociedade, de forma contratual ou mesmo legal. Eu me assusto com este teu estilo. Falo assim, porque, certamente, não encontraremos muito eco diante daqueles que, porventura, venham tomar conhecimento deste nosso diálogo.

No entanto, confiando na nossa capacidade para deslizar por entre as linhas e as entrelinhas, sem causar maiores incidentes, vamos em frente. Na tua opinião, da qual não ouso discordar, é razoável comparar o que é ético com o que é, também, justo, uma vez que uma coisa não sobrevive dissociada da outra. Partindo desta hipótese, pensas que tal como ocorre com a justiça, a prática da ética decorre muito mais de uma imposição vinda do exterior, do que, propriamente, do interior dos seres humanos. Em outras palavras: a teu juízo, o indivíduo só procura ser ético diante do público quando, em segredo, no silêncio da sua alma e, caso eventualmente consultado por si mesmo, manifestaria outro desejo de ser, de viver e de agir.

Destas tuas conclusões, penso ser coerente a dúvida inicial: o indivíduo é ético por convicção ou por coerção? Haveria, por assim dizer, um caminho do meio, no qual um intrépido qualquer pudesse esconder suas verdadeiras características, sem cair diante de um lado ou de outro do abismo? Penso que não!

É claro que não podemos, aqui, neste espaço bastante limitado, pretender efetuar uma exploração sobre a conduta humana no decorrer de toda a história da civilização, sob pena de descermos às profundezas das origens, sem fôlego para o imediato retorno. Desta forma, buscando amparo na análise sobre o humano do nosso tempo que, certamente, é o mesmo de sempre, poderemos encontrar evidentes semelhanças entre os mais diversos exemplares, haja vista pertencermos, todos, à mesma espécie.

Bem, no tempo atual, parece não existirem dúvidas quanto ao fato de que a força dos atos e das opiniões que praticamos ou que externamos, encontra forte balizamento no que a chamada “maioria” pratica ou declara pensar. Assim, praticamos as ações que, segundo a “maioria” dos nossos congêneres, são as mais corretas, as mais justas, as mais equilibradas, as mais coerentes e as mais virtuosas. Na mesma direção, as opiniões que externamos. Devem, para não serem cruelmente apedrejadas, estar em absoluta conformidade com a opinião dos que, inclusive, são denominados “formadores de opinião”. Com um pouco de reflexão, parece não haver muita dúvida quanto a isto.

Ora, se pudermos assumir como verdadeiras as proposições acima, então chegaremos facilmente à conclusão de que os seres humanos contemporâneos agem muito mais, movidos pelo que lhes é imposto pela sociedade, que se fecha em copas, do que propriamente pela sua genuína natureza. Donde podermos afirmar, então, que os indivíduos falam sobre a ética, defendendo-a com unhas e dentes, apenas, e, tão somente, diante das câmeras ou dos inúmeros olhares que lhes são dirigidos por uma plateia ávida por ouvir, justamente, aquilo que se espera que seja dito, até porque, é o reflexo de determinado pensamento dominante. Fora destas circunstâncias e destes contextos, tais indivíduos tendem a conflitar com seus próprios pendores internos.

Seria o caso, e até bastante oportuno, de recordar o famoso exemplo do pastor de ovelhas chamado Giges, usado por Platão, na sua “A República”. Para quem não conhece o caso, aqui vai uma palhinha bem resumida, a partir do diálogo entre Gláucon e Sócrates, quando o primeiro apresenta Giges como um sujeito cumpridor dos seus deveres, mas que, em razão de circunstâncias climáticas, encontra, no corpo de um cadáver, um anel de ouro. Dada a localização do cadáver (é bom ler no original), Giges apodera-se do anel e, em pouco tempo, descobre que ao movimentar a parte superior do anel na direção da palma da sua mão, torna-se invisível para as demais pessoas. Voltando o anel à posição inicial, volta a ser visto por qualquer um. Ora, Giges rapidamente torna-se um sujeito perigoso, uma vez que, possuidor de tais poderes, é capaz de, na invisibilidade agora possível, praticar os atos mais absurdos que se possa imaginar. Sugiro que os leitores leiam a história na íntegra (Segundo Livro de A República – Platão). Para o leitor atento da historinha de Giges, o próprio fato de apoderar-se do anel, em um ambiente fora da vista das pessoas, já soa como algo bastante sugestivo acerca da real personalidade do pastor de ovelhas que, naquele justo momento, encontrava-se a sós com o cadáver, longe de olhares outros.

Imaginem os leitores e as leitoras, por exemplo, o caso de dois estudantes que decidam efetuar matrícula em mesma instituição universitária, sendo que, em dado momento, um deles, sejam lá quais forem as suas razões, decide não mais caminhar junto com o outro, desistindo do ingresso no campus universitário. Obviamente, cada um segue o caminho que se lhe afigura como o melhor. No entanto, o que desistiu de seguir a caminhada universitária, pede ao outro para, na medida em que o curso for evoluindo, vá passando para ele todas as apostilas que recebe da instituição, pelo simples fato de estar regularmente matriculado. Assume, diante do amigo, o interesse em aprender tudo o que puder sobre aquela cadeira, apenas, e, tão somente, não querendo assumir compromissos com o estudo regular nem com as regras impostas pela instituição.

O caso pode parecer estranho ao tema aqui desenvolvido. No entanto, é preciso olhar com um pouco mais de atenção para podermos enxergar a quebra da ética, principalmente, por parte do estudante regularmente matriculado, caso resolva atender o pedido feito pelo amigo. É que, parece bastante claro que, no caso, só tem direito de receber as tais apostilas, aquele que está inscrito naquela instituição para cursar aquela disciplina específica. Para tanto, a instituição cobra um determinado valor mensal, e o estudante paga com a devida regularidade. Enquanto o outro, por ter desistido de frequentar o mesmo curso, ficou isento de efetuar qualquer pagamento àquela instituição ficando, também, sem direito de receber dela, de forma direta ou indireta, qualquer material didático.

Ora, para os que ainda possam guardar alguma insegurança relativamente ao fato, basta perguntar-se a si próprio se, no caso, o estudante que resolvesse atender aos clamores do amigo, seria bem avaliado, e até mesmo aplaudido pela direção da Universidade se, em dado momento, toda a trama viesse a público. Será que o gesto de amizade, passando por cima dos autores do projeto de estudo dirigido, desconsiderando todo o trabalho de pesquisa, além do custo do material utilizado e da força de trabalho despendida, seria visto com bons olhos pelo Reitor da Universidade ou pelo Diretor daquela disciplina? Pode ser que não!

Trata-se de um exemplo muito simples. Bastante simples, mas, que, ocorre com muita frequência no mundo acadêmico. Ora, mas isto não é nada grave, poderiam objetar os leitores e as leitoras. Parece não ser grave mesmo. No entanto, quem é capaz de praticar um ato minimamente antiético, de posse de uma justificativa até plausível, será capaz de praticar muitos outros, para os quais, certamente, encontrará as justificativas cabíveis e, possivelmente, admissíveis, desde que – e isto é importante – não sejam atingidos interesses maiores, caso venha a ser descoberto.

Portanto, exemplos não faltam no dia-a-dia das nossas vidas. É preciso, e até certo ponto útil, que cada um de nós faça uma avaliação rigorosa diante de cada ato a ser praticado, para saber se está agindo por força da coerção ou de uma sólida convicção própria. Agiria desta forma, independentemente da publicidade do ato, ou, por outro lado, diante da plateia, tomaria outro rumo?

Há a alguns anos eu adquiri, pela internet, um programa nutricional, seguido de um livro de receitas de culinária, elaborados por uma equipe cujo chefe era um médico gastroenterologista, com foco em pessoas portadoras de diabetes. Adquirir, aqui, significa, comprar mesmo. Comprar e pagar. Bem, seria natural que, comprando e pagando, eu me entendesse como “dono” daquele material, podendo repassá-lo para qualquer outra pessoa das minhas relações. Até mesmo para ajudar alguém a se alimentar de forma mais adequada. Muito justo, diriam alguns. No entanto, no ato da compra, tive que declarar estar ciente de que, qualquer forma de transferência daquele material, no qual vinham estampados o meu nome e o número do meu CPF, constituiria fraude, em razão do direito da autoria, do qual o médico assinante é detentor. Não bastasse a referida adesão ao compromisso, assim como a minha identificação para fins fiscais, verifiquei, posteriormente que, qualquer simples cópia, exibia, também, o endereço eletrônico do médico, na forma de marca d’água, significando que, mesmo que eu quisesse burlar o compromisso assumido, estaria muito claro para qualquer pessoa, que aquele era um material cujo autor deve ser respeitado. Valendo dizer: quem quiser adquiri-lo, deve comprá-lo!

Quer um outro exemplo prático? A Folha de São Paulo até permite que sejam feitas cópias das matérias que publica. No entanto, o copiador, ao teclar o Ctrl+v, recebe apenas o endereço eletrônico da referida página do jornal que, por sua vez, só pode ser acessado por assinantes. O que isto significa? Significa que, se eu, que sou assinante, enviar cópia do endereço eletrônico para uma pessoa que não o seja, ela não conseguirá o acesso desejado. E por quê? Seria de se perguntar: por se tratar de material de cunho comercial, que possui valor econômico para quem o produz. Desta forma, se qualquer pessoa pudesse obter acesso àquele material, a empresa iria à falência.

Observem que, em ambos os exemplos, a "ética", aqui, ocorre em função das precauções tomadas pelas respectivas instituições, o que parece não ocorrer no caso do estudante cujo amigo pediu cópia do material disponibilizado somente para os regularmente matriculados naquela disciplina específica. Portanto, neste último caso, é possível que o nosso prezado estudante mandaria a ética às favas e, para agradar ao amigo, cederia facilmente todo o material solicitado. Tiraria, também, se fossem pedidas, fotos das professoras mais sensuais, assim como das estudantes mais bonitas etc., sem qualquer constrangimento. Tudo isto porque, para ele, ética tem a ver com a liberdade de agir, e esta, não encontra limites a não ser na lei e na punição.

O grande problema, é que o ser humano não se esmera em ser honesto, em respeitar o direito alheio. Pelo contrário, procura sempre esmerar-se em superar quaisquer obstáculos relativos à ética, de modo que, da forma mais discreta, e secreta, possível, possa invadir o espaço do outro sem ser descoberto e sem, evidentemente, perder a auréola de “pessoa ética”.

Finalizando este nosso colóquio, julgo ser necessário dizer que precisamos inverter esta lógica, porque ela tem destruído uma das coisas mais importantes da vida de todos nós: a confiança mútua. Precisamos acreditar que nossas relações, sejam comerciais ou não, carecem do sentimento, e da própria convicção, da justeza, do equilíbrio e da equidade. É, pois, possível, uma melhor convivência. Só depende de todos e de cada um de nós.

Em razão do meu atual momento acadêmico, penso ser importante discriminar aqui o Óctuplo do Nobre Caminho, extraído do Dhammapada, que traz as Quatro Nobres Verdades ensinadas por Buda, para a superação e a libertação da dor e do sofrimento: a) a reta compreensão; b) o reto pensamento; c) a reta palavra; d) a reta ação; e) o reto modo de vida; f) o reto esforço; g) a reta atenção; h) a reta concentração.

O sentido de “reto”, aqui, é o daquilo que é “justo”. Portanto, precisamos conhecer e, ao mesmo tempo, praticar, estas virtudes, para podermos disseminar o caminho do bem que tanto almejamos para as nossas vidas, assim como para as de todos os nossos semelhantes. A pergunta não é: É possível ter um mundo melhor? Mas, sim: Eu consigo ser melhor do que sou para encontrar um lugar no mundo que almejo como melhor? Porque, se a resposta a esta segunda pergunta for afirmativa, a primeira questão estará, igualmente, resolvida.

Espero que tenhas ficado satisfeito com estas minhas ponderações e que os nossos leitores e leitoras possam, também, tirar algum proveito de tudo isto, apesar de, como sempre, reafirmar que tudo não passa de opiniões e de convicções de natureza pessoal, frutos da vivência e da própria experiência de vida. Que cada um faça as suas íntimas e saudáveis reflexões e que, a partir daí, possa tirar as conclusões capazes de mudar caminhos e caminhadas, oferecendo exemplos e opções para outros caminhantes. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Filosofia, estudioso da Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

ago 31

EDITORIAL DA SEMANA: NÃO DESISTA DA PERMANENTE BUSCA PELA SABEDORIA

A BUSCA PELO SABER

A BUSCA PELO CONHECIMENTO E PELA SABEDORIA EXIGE NEUTRALIDADE E IMPARCIALIDADE –

*Por L. A. de Moura –

Hoje você traz um assunto formidável para que, sobre ele, possamos abrir algumas portas que, no final de todas as contas, serão convertidas em acesso para o livre pesquisador, estudioso e pensador poderem adentrar no fantástico mundo do conhecimento.

Sem muita complacência para com este escriba, você questiona, de início, a motivação de certas pessoas para, em decorrência das crenças, religiosas ou não, afastarem-se dos diversos campos do conhecimento. Segundo seus argumentos, muitas pessoas preferem acorrentar-se à ignorância, para manter suas convicções, a lançarem-se livremente no universo do saber, da busca pelo conhecimento, em todos os níveis possíveis, e da própria verdade sobre todas as coisas. E, ainda, de acordo com a sua tese, crenças e convicções ortodoxas funcionam como verdadeiros muros de concreto, a impedirem o avanço de boa parte da humanidade que, para piorar ainda mais o cenário, prefere desacreditar os buscadores de novos caminhos e de novos conhecimentos, a dar-lhes seguimento e subsídios em seus trabalhos.

Para você, conforme posso deduzir pela sua indignação, trata-se de situação aviltante à qual o ser humano, em escala crescente e progressiva, está estacionado, proporcionando um endurecimento absurdo da alma, alimentando o egoísmo e a prepotência e impedindo a própria evolução espiritual, tão necessária para a vida pós-túmulo.

Como tem feito ultimamente, você passa para mim a árdua tarefa de tomar uma posição diante do tema, acreditando que, talvez, eu consiga encontrar uma porta de saída para impasse de tal magnitude. Não tenho tal pretensão. No entanto, algumas palavras posso acrescentar ao seu repertório de observações e de conclusões.

Veja, é fato concreto, e neste sentido você está coberto de razão, que uma parte significativa da humanidade vive, atualmente, entre a cruz da ignorância e a espada das próprias convicções. Pregada na cruz da ignorância, esta larga parcela de seres humanos, com pregos cravados no próprio cérebro, não consegue, sequer, imaginar a possibilidade de sair livre da condenação. Ao mesmo tempo que, com a espada das crenças e das convicções apontada para a jugular, esta mesma parcela é incapaz de ousar qualquer movimento na direção do vértice, ou seja, na direção do Conhecimento e da Verdade. Deste modo, temos aquilo do que somos testemunhas oculares.

Bem, você poderia então, e de uma forma bastante legítima, perguntar: o que dizer deste cenário caótico? Como sair deste impasse? É certo que, quase sempre, temos respostas prontas para muitas coisas. Porém, para outro tanto de questões não as temos, assim, de imediato.

Não posso deixar de admitir que esta tem sido uma das questões que mais ocupam a minha mente de pensador, procurando compreender a falta de interesse e, podemos mesmo dizer, de vontade, das pessoas para buscarem de modo constante o aperfeiçoamento do conhecimento e da sabedoria. No afã de encontrar respostas minimamente aceitáveis e, ao mesmo tempo, eficientes, venho meditando sobre tudo isto há muito tempo. Não encontrei nada de muito satisfatório. Ainda assim, consegui contabilizar algumas possibilidades que, caso adotadas possam, talvez, alterar este estado, como você afirma, “caótico”.

No mundo das ideias, que é basicamente o nosso, crenças e convicções chegam até nós por meio de dados, informações, pregações e certezas trazidas por pessoas e/ou instituições que, para tanto, valem-se de diversos instrumentos – livros, vídeos, textos antigos ou recentes, interpretações de códigos, de leis, de manuais e de ensinamentos muito antigos, doutrinas e dogmas – que surgem, justamente, com o objetivo de criar em cada um de nós uma espécie de carcaça, presumidamente protetora contra as chamadas intempéries da vida. Para os que trazem tudo isto para nós, é imperativo que acolhamos tudo com bastante aguerrimento, certeza e fidelidade, de nada abrindo mão, ou por nada substituindo, para que estejamos, digamos, sempre protegidos contra os falsos mestres e, por fim, contra a caminhada rumo a todo um mundo de fenômenos, de conhecimentos e de saberes ainda desconhecidos pela maioria de nós, mal explicados ou mesmo mal esclarecidos.

Ora, uma das grandes virtudes que o ser humano pode ostentar, quando possui, é a do discernimento. É saber distinguir uma coisa da outra com a maior exatidão e perfeição possíveis. Esta virtude faz parte do cabedal de sabedoria que o ser humano deve almejar e que deve, portanto, lutar diuturnamente para alcançar. O Apóstolo Tiago, na sua Epístola às doze tribos, afirma que: “Se algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e não lança em rosto, e ser-lhe-á concedida. Mas peça-a com fé, sem nada hesitar, porque aquele que hesita é semelhante à onda do mar, que é agitada e levada de uma parte para a outra pelo vento.” (Tg 1, 5-6). Assim, é de suma importância que o ser humano seja virtuoso na arte de discernir entre o bem e o mal, entre o falso e o verdadeiro, entre o certo e o errado e, por fim, entre todos os dualismos existentes e conhecidos.

Portador da virtude do discernimento, tal qual o homem que, amarrado ao mastro do navio, pode ir à ilha das sereias, sem ser capturado e devorado, o ser humano pode, e deve, caminhar, sempre, em busca de novos conhecimentos acerca de tudo o que o cerca, sem medo e sem titubear, ou seja, sem hesitar, conforme exorta o Apóstolo na carta acima mencionada.

Em outras e conclusivas palavras: aquele que sai em busca do conhecimento e da sabedoria deve portar-se de forma absolutamente neutra e imparcial, de modo a impedir que pré-conceitos possam servir como obstáculos para o crescimento, humano e espiritual. Dotado com a virtude do discernimento, o ser humano sempre reconhecerá a verdadeira sabedoria, assim como o sábio e correto ensinamento, deixando de ser escravo das verdades e dos ensinamentos prontos que, normalmente, são-lhe entregues por mestres que nem sempre acreditam ou praticam o que pregam e ensinam.

O contexto no qual estamos inseridos atualmente exige, diante dos inúmeros fatos por todos presenciados e testemunhados, que desçamos da cruz da ignorância e que nos afastemos da espada das convicções que, de certa forma, nos foram impostas de cima para baixo, para irmos em busca de conhecimentos mais sólidos e mais profundos, ainda que para, apenas, confirmar o que já sabemos de antemão. É necessário que, de forma neutra e imparcial, possamos nos lançar no mar em busca de outros peixes. Neste sentido, gosto sempre de recordar a perícope do Evangelho de Lucas, quando Jesus ordena a Pedro para ir mais adiante, no mar, para lançar suas redes. Ora, Pedro havia passado a noite toda ali, naquele mesmo mar, lançando as suas redes, sem nenhum sucesso. Nada de peixes! Ele fala isso com Jesus sem, no entanto, deixar de acrescentar: “Mestre, tendo trabalhado toda a noite, não apanhamos nada; porém, em respeito à tua palavra, lançarei a rede.” (Lc 5, 1-9). Pedro, um velho e exímio pescador, conhecedor das artimanhas do mar, cheio de sabedoria e de convicções, ouve a voz Daquele que nunca tinha fisgado um único peixe na vida. Abre-se para o próximo, abre-se para o conhecimento do outro. Leia o capítulo indicado acima e veja o que aconteceu com a superação das velhas e impactantes convicções do velho pescador.

Não fomos criados para vivermos na limitação. O Criador espera que cresçamos na fé, no Conhecimento e na Sabedoria. E, já que citei Jesus, volto a Ele para recordar suas sábias palavras, ao afirmar que: “aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e fará outras ainda maiores” (Jo 14, 12). Observe que o Mestre de Nazaré não se contenta com o fazermos as mesmas obras que Ele fez, mas, sugere que façamos “outras ainda maiores”. Portanto, não devemos permanecer amarrados ao mastro do navio quando ao nosso redor, sequer, inexistem sereias devoradoras. Não devemos ter medo do conhecimento e da sabedoria. Ao contrário, devemos ir ao seu encontro a fim de crescermos, principalmente, no âmbito espiritual que, no fundo, deveria ser o nosso único interesse nesta vida e neste mundo.

Por último, para reforçar minha concordância com a sua legítima preocupação, quero citar, ainda, a parábola dos talentos, contada por Jesus, mas que, aqui, vou resumir: um homem que estava para sair em viagem pelo exterior, chamou seus três empregados e entregou-lhes parte da sua fortuna. Ao primeiro entregou cinco talentos; ao segundo, dois talentos e, ao terceiro, um talento. O homem que recebeu cinco talentos, investiu tudo aquilo e, ao final, dobrou o capital do patrão; o segundo empregado fez o mesmo e obteve o mesmo resultado, colheu o dobro do que investiu. O terceiro empregado, porém, com medo do que pudesse acontecer, e sabendo que o patrão era homem bastante rigoroso e severo, preferiu cavar um buraco no chão e enterrar o único talento que recebera. Quando o patrão retornou da viagem e pediu a prestação de contas do dinheiro entregue aos três empregados, cobriu os dois primeiros de elogios e reprovou a atitude, e o medo, do terceiro empregado, chamando-o de “servo mau e preguiçoso”, determinando que fosse-lhe retirado tudo o que estava sob a sua administração (Mt 25, 14-30).

Portanto, aquilo que recebemos das mãos do Senhor, devemos investir, de modo a multiplicar tudo o que nos foi confiado, inclusive, e, principalmente, o conhecimento e a sabedoria, sob pena de, em algum momento da nossa trajetória, sermos por Ele tachados de “servos maus e preguiçosos”, vindo a perder até mesmo o pouco que havíamos recebido anteriormente. Munido com a virtude do discernimento, lança-te na caça por mais e mais conhecimento; atira-te na busca por mais saber; adentra no mar do crescimento espiritual e lança as tuas redes. Abandona o medo e a covardia, símbolos máximos da falta de fé, de coragem e de fidelidade e prova inequívoca de falta de respeito para com a palavra do Mestre maior, Jesus, a quem o pescador Simão Pedro não ousou desobedecer ou mesmo desconfiar do seu saber, apesar de ainda não conhecê-Lo tão perfeitamente como viria a fazê-lo bem mais tarde. Liberta-te da cruz e da espada que te impedem de prosperar espiritualmente. Foge da sombra do conhecimento e do saber servidos, prontos e acabados, na bandeja dos sábios de plantão que, quase sempre, estão por trás de escândalos financeiros, sexuais e morais.

Desta forma, meu amigo de caminhada, espero ter acrescentado algo mais à sua já tão expandida sabedoria. Você, certamente, dotado de saber e de discernimento que é, saberá agregar o que for bom e útil e, ao mesmo tempo, desvencilhar-se do que for inútil, desnecessário ou redundante.

Que nossos leitores e nossas leitoras compreendam bem o nosso propósito e que, munidos do espírito da imparcialidade, da neutralidade, da boa vontade e da virtude do discernimento, possam fazer bom proveito deste texto que, como sempre gostamos de destacar, não é verdade pronta e acabada para ninguém, nem para nós mesmos. É apenas um ponto de partida. Um ponto que dá acesso a inúmeros outros pontos. Sejam felizes, e que gozem da boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Filosofia, estudioso da Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

ago 24

EDITORIAL DA SEMANA: QUEM É VOCÊ DE VERDADE?

QUEM SOU EU

O QUE DIZER, QUANDO ALGUÉM DESEJA SABER QUEM SOU EU –

*Por L. A. de Moura –

Ultimamente algumas questões bastante interessantes têm percorrido o nosso diálogo semanal. São questões que, na maioria das vezes, você traz para que eu possa, após ouvir as suas ponderações, emitir algumas opiniões, independentemente de estarem, ou não, em conformidade com o seu pensamento. De fato, você tem me instigado, diria mesmo, provocado, a refletir sobre temas do nosso cotidiano. Temas que, realmente, estão na pauta das nossas relações diárias e pelos quais passamos, muitas vezes, sem nos darmos conta da importância que possuem para o nosso progresso, enquanto seres humanos. Desde o início, gostei da sugestão e aprovei os critérios para que, a partir destas trocas de experiências, pudéssemos levar aos leitores e às leitoras alguns subsídios favoráveis, e até mesmo incentivadores, para regulares reflexões.

Hoje você apresenta algo inusitado para refletirmos durante a nossa já costumeira caminhada. Trata-se da forma como eu, você e cada um de nós, devemos nos apresentar para as pessoas que, de algum modo, demonstram interesse em conhecer quem, de fato, nós somos. Inicialmente, você afirma que seria lógico que, ao me apresentar para a outra pessoa, eu expusesse minhas características físicas. Ora, estas características, isso me parece óbvio demais, não interessam a ninguém. Até porque, basta olhar para mim para, imediatamente, saberem quem eu sou sob esta perspectiva.

Você, no entanto, acredita que, ao descrever todas as minhas características físicas, eu estaria demonstrando, e até certo ponto aceitando, certas, digamos, disparidades em relação a outros corpos mais perfeitos e/ou ajustados aos padrões de beleza aceitos ou impostos pela sociedade. Assim, se ostento certa deficiência facial, por exemplo, e deixo de descrevê-la abertamente seria, na sua opinião, uma forma de fugir de uma realidade que, no fundo, estaria a me incomodar. Se, ainda, sou de estatura menos elevada, ostento uma calvície e revelo uma barriguinha um pouco saliente, o fato de deixar de mencioná-las seria, no seu entender, um modo que eu adotaria para acreditar que, ficando em silêncio quanto a tais fatos, faria com que o outro deixasse de dar tanta atenção. Não penso exatamente deste modo. Porém, respeito todas as suas colocações neste sentido. Afinal de contas, você, na minha opinião, tem alguma razão quanto à necessidade que tenho de enfrentar todos os meus, digamos, dilemas estéticos. De fato, existem pessoas, e eu conheço algumas, que não se aceitam como são ou como estão. E, por esta razão, vivem em função de alterar todas as suas incômodas características, por acreditarem padecerem de certas “deficiências” físicas. Não concordo, porém, respeito!

Na minha opinião, quando alguém deseja saber quem, de fato, eu sou, está interessado em conhecer justamente tudo aquilo que o corpo não revela. Vale dizer: quer conhecer o máximo possível a respeito da minha formação espiritual, ética, moral e, porque não dizer, da minha personalidade. É isto que interessa às outras pessoas e ao mundo que me cerca.

Conte-me mais sobre você, costumam pedir as pessoas quando se relacionam conosco pela primeira vez. E aí está a chave de tudo. Porque, na medida em que expomos o que somos, o que pensamos e, principalmente, a forma como estamos acostumados a agir, é que o nosso interlocutor terá elementos suficientes para, dali por diante, testar a veracidade de tudo o que dissemos. Afinal, é preciso responder a estas perguntas: o que me faz bem, o que me traz alegria, como vejo o outro, sob diversos aspectos, que princípios e valores eu cultivo? Todas estas questões estão ali, diante de nós, fervilhando no mar da curiosidade alheia

Não preciso te lembrar que, quanto mais interesse a outra pessoa demonstra em ouvir sobre mim, mais vontade de falar eu tenho. Assim, não é raro que, nestas circunstâncias, a gente fale coisas mirabolantes. Coisas que, na verdade, são mais lendas do que realidades. E será, no dia-a-dia daquele relacionamento que se inicia, que vou ser chamado a comprovar tudo o que falei sobre mim. E com o tempo a pessoa saberá perfeitamente, quem eu sou de verdade.

Se me apresento, por exemplo, como uma pessoa de trato fácil, de temperamento sereno, tranquilo e compreensivo, passo para o meu interlocutor a imagem de uma pessoa bacana, amiga, simpática. Pessoa com a qual, jamais, se tem qualquer problema de convivência. No entanto, se na primeira situação adversa em que estivermos juntos, eu perder a serenidade, a tranquilidade e a compreensão, ainda que eu caia em mim, imediatamente, e me lembre dos detalhes da minha apresentação e peça mil desculpas, a pessoa certamente ficará com a “pulga atrás da orelha”, pois, perceberá que aquela pessoa é diferente da que se apresentou a ela. Mas, em nome da tolerância e da compreensão, meu interlocutor passará uma borracha sobre o acontecido e, vida que segue.

Mesmo sendo tolerante, paciente e compreensivo, aquela(a) a quem me apresentei, sempre estará a observar a minha conduta diante das outras pessoas e/ou de situações adversas. E, com toda certeza, terá ocasião para comprovar quem, realmente, eu sou em termos de temperamento.

Bem, cada um de nós tem o seu próprio temperamento e, por mais que queira parecer agradável, em certos momentos e circunstâncias, é inclinado a agir de forma bastante severa, ou até mesmo ríspida. Coisas do ser humano! Com um pouco de jeito a gente até compreende bem.

Se a outra pessoa fosse você, por exemplo, que é inteligente e dotado de boas intenções, compreenderia tudo o que eu disse acerca do temperamento, e procuraria me observar sob outros prismas. Haveria de se interessar, talvez, por comprovar o respeito que eu tenho pelos valores e princípios que sustentei, lá na primeira conversa, como sendo fundamentais para a minha vida. E aí, também, pode acontecer de sofrer algumas decepções, pois verá que eu, diante de certas circunstâncias, e dependendo do contexto, prefiro auferir todas as vantagens possíveis em uma relação, sem demonstrar qualquer forma de amizade, de solidariedade, de compaixão ou mesmo de fraternidade para com outras pessoas. Aquele sujeito que se apresentou a você, como amigo, humanista, fraterno e solidário, agora, na prática, revela-se absolutamente outro. E isto te assusta!

Bem, você poderá questionar: o que mais esperar de um sujeito destes? Um sujeito que se apresentou de um jeito, mas que na prática, tem se revelado outro. Pois eu te digo que pode esperar muitas outras novidades... negativas, porque uma pessoa destas trai a confiança de todos e de qualquer um que dela se aproxima.

Por esta razão, é que eu sustento que, quando alguém vai se apresentar a outra pessoa, deve falar sobre seus valores, princípios, conceitos, personalidade e outras virtudes espirituais. E deve, é óbvio, ser coerente com tudo aquilo que está dizendo sobre si. E, ainda, caso não se sinta celeiro de algumas virtudes, deve assumir isto de imediato, sem se preocupar com a reação do outro, porque trata-se de revelar, quem ela é de verdade. Não deve mentir ou omitir nada, na tentativa de passar uma imagem, digamos, agradável e adequada ao pensamento dominante. Pois, efetivamente, será cobrada por isto em futuro próximo.

Eu, por exemplo, defendo a ideia de que não preciso me preocupar em ser agradável a ninguém. O que, de fato, deve ser objeto das minhas preocupações, é se tenho sido coerente com a minha personalidade, com o meu caráter, com os meus princípios e valores, morais e éticos. Desta forma, ser sincero diante dos outros é uma das minhas grandes virtudes. Quando eu elogio alguém, a pessoa pode ter certeza de que não a estou bajulando; quando a critico, da mesma forma, não a estou ofendendo. Em quaisquer circunstâncias, estou sendo honesto para com o outro. Coisa que muita gente se recusa a fazer, sob a desculpa de não querer ou poder ser desagradável. É melhor passar por desagradável do que por mentiroso, falso, hipócrita e fraudador da própria personalidade, como conheço e conheci muitos durante a minha caminhada.

Na realidade, os outros sempre esperam que sejamos coerentes com aquilo que dizemos ser. Não podemos afirmar que somos uma coisa, se agimos de forma absolutamente oposta, sob pena de perdermos um prêmio fantástico, que é a credibilidade. Uma das melhores coisas que podemos perder é, justamente, a credibilidade, a confiança alheia. Esta perda é de difícil recuperação. E eu conheço muita gente, e você deve conhecer também, que vive se apresentando de um modo e agindo de outro, diametralmente, oposto. Estas pessoas não se tocam, porém, já são mais do que conhecidas e, podemos dizer, manjadas. Ninguém mais, que com elas convivem, nelas depositam confiança ou crédito. Em muitos casos, as pessoas convivem com este tipo de gente por absoluta necessidade, não, por sentirem estima, confiança e/ou amizade verdadeiras.

Penso ser muito triste e, de certo modo, decepcionante, saber que alguém convive comigo por obrigação, necessidade ou imposição das circunstâncias, simplesmente porque me apresento de um jeito e me comporto de outro completamente diferente, incoerente, falso, mesquinho etc. Muitas são as oportunidades em que as pessoas são aceitas, apenas, em razão do cargo ou da função que ocupam. Não fosse por isto, poucos seriam próximos de verdade e em verdade.

Espero que você, particularmente, não se sinta triste comigo, ante meus argumentos. São apenas os meus argumentos. No fundo, no fundo, podem não ser coincidentes com os seus. Mas, pelo menos, estamos sendo absolutamente sinceros um com o outro.

E que os nossos leitores e leitoras possam aproveitar nossas formulações para refletirem sobre suas próprias vidas e possam, também, promover um sério exame de consciência, a fim de verificarem como estão se comportando diante dos seus semelhantes. De que forma estão se apresentando a quem os deseja conhecer e se estão, de fato, sendo coerentes com a figura humana que usam para descreverem-se a si mesmos. Tomara, ajam desta forma. Assim, o mundo poderá ser um pouco melhor para todos nós. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Filosofia, estudioso de teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

ago 17

EDITORIAL DA SEMANA: SOBRE A ESTAGNAÇÃO ESPIRITUAL DO SER HUMANO

UMA NOVA ESPIRITUALIDADE

REFLETINDO SOBRE A ESTAGNAÇÃO ESPIRITUAL DO SER HUMANO CONTEMPORÂNEO–

*Por L. A. de Moura –

Após algumas reflexões, você declara com surpresa a conclusão de que os seres humanos deste tempo atual conseguiram ficar – nas suas palavras – “estagnados”, relativamente à atividade espiritual. Traz a questão para mim, afirmando que, nos dias que correm, as pessoas estão muito mais preocupadas com o “ter”, do que com o “ser” e que isto, no seu entendimento, explica alguns dos fracassos que a humanidade, como um todo, tem experimentado de forma um tanto assustadora.

Embora eu concorde com o resultado das suas reflexões, você faz questão de conhecer minha opinião pessoal acerca do tema, acreditando que eu, mesmo concordando com as suas colocações, tenho condições de acrescentar algo a mais. Algo que, no seu entender, possa, digamos, lançar mais luzes sobre uma questão tão vital para a própria existência do ser humano. Aliás, você é de opinião de que, acerca do tema, muita coisa ainda precisa ser dita.

Conforme já fiz questão de destacar, concordo com você quando utiliza o termo “estagnação espiritual”, para se referir à humanidade no atual estágio da sua existência. De fato, se compararmos com o que conhecemos acerca dos tempos antigos, os seres humanos deste nosso tempo estão muito aquém daquilo que um dia já pode ser denominado como “espiritualidade”. E nem precisamos ir tão longe na linha do tempo. Se levarmos em consideração, por exemplo, alguns espiritualistas que estiveram entre nós, agorinha mesmo, no século XX, vamos perceber que o fenômeno por você sublinhado é coisa bastante recente. Coisa de, digamos, poucas décadas para cá.

Você, é claro, quer saber justamente as causas desta estagnação. As razões que fizeram com que os seres humanos chegassem a tal ponto. Na ânsia por uma resposta, você antecipa algumas perguntas, pretendendo empurrar-me para as respostas fáceis. Por exemplo, indaga: “os seres humanos perderam a fé nas coisas relacionadas com o espírito?”, ou, “o mundo tornou-se tão atrativo a ponto de abduzir todos os seres pensantes?”, ou, ainda, “não se acredita mais na perenidade da vida e na eternidade do espírito?”. Suas perguntas são, deveras, sagazes. Eu, no entanto, evitarei cair na sua estratégia e, portanto, não oferecerei respostas imediatas mas, apenas, e tão somente, algumas das minhas convicções, deixando que, ao final, você tente de per se, encontrar o que procura.

Uma das grandes janelas do tempo – o pensamento – está fechada para a maioria dos seres humanos. Esta janela esteve, durante séculos, aberta para uma significativa quantidade de homens e mulheres que jamais abriram mão do direito de pensar, de raciocinar, de buscar respostas para tudo o que se passava no seu entorno, especificamente, no que dizia respeito à espiritualidade como forma de vida, apesar de todas as circunstâncias do contexto em que viveram. A comprovação disto, e sem citar nomes específicos, está na fabulosa literatura filosófica, teológica, antropológica, teosófica etc., produzida e compilada durante séculos.

Por outros tantos séculos a mesma literatura continuou sendo objeto de estudos e de pesquisas por aqueles e aquelas que, já apresentando sinais de conformismo com o que fora pensado e concluído até então, já não sentiam mais o mesmo estímulo dos mais antigos e, portanto, evitavam pensar muito, preferindo, ao contrário, dedicar-se à leitura e ao estudo aprofundado sobre tudo o que já tinha sido objeto da atenção de outros.

Obviamente, e você haverá de concordar comigo, vamos encontrar já na fase pura e simples do estudo e da leitura, um pequeno declínio na arte de pensar e de procurar respostas espirituais e espiritualistas. Porém, ainda não se pode afirmar que isto representou o caos. O pior, certamente, e como sempre acontece, ainda estava por vir.

Chegou o tempo em que uma grande massa de seres humanos pendeu para o lado da prática religiosa institucionalizada. Vale dizer: as pessoas queriam estar vinculadas a uma religião sólida e consolidada. A partir deste evento, e por não estar dando aula de história deixo com você a tarefa de promover uma adequação cronológica, tudo passou a ser muito diferente. As perguntas que antes eram feitas pelos grandes espiritualistas a si mesmos, cujas respostas eles próprios encontravam depois de muitas reflexões, orações e oblações passaram a encontrar forte resistência por parte das religiões que, simultaneamente, ofereciam, e ainda oferecem, um cardápio de respostas prontas, quentinhas, saídas do forno da indução.

Bem, acredito que você esteja começando a compreender que as perguntas que tais pensadores faziam a si mesmos, acerca da existência do ser humano, bem como do seu destino final e dos caminhos espirituais a serem percorridos, levavam-nos a profundas reflexões e, consequentemente, a enormes modificações no seu modus vivendi. Donde, então, um modelo de espiritualidade tomou forma e ganhou espaço considerável entre os seres humanos. Passou-se, então, à compreensão da existência de uma vida sobrenatural já a partir desta vida terrena. Ou seja: a forma de vida adotada neste plano terreno está intimamente ligada com o destino final de cada criatura. Assim, os que voltavam seus olhos para a vida espiritual, privilegiando o ser ao invés do ter, construíam e pavimentavam uma larga estrada rumo à eternidade. Uma estrada que valia à pena ser percorrida!

Foi um trabalho árduo, no qual muitos e muitas perderam a própria vida, tornando-se verdadeiros mártires, em nome do amor e da fidelidade a Deus, à Verdade e ao próximo. Era um período de muita espiritualidade! Os seres humanos direcionando os olhos do espírito para muito além desta pobre existência terrena. Um mundo realmente promissor, compreendido como uma espécie de porta para a eternidade da alma.

Entretanto, a forte indução religiosa, marcou os seres humanos com o estigma da “salvação”, pela simples adesão a um líder espiritual ou ao que poderíamos denominar de “messias”. Aceitando de bom grado o seguimento ao líder ou ao messias indicado pela religião, os fiéis estariam, e ainda estão, salvos de qualquer perdição espiritual, dispensando maiores indagações ou projeções de natureza espiritualista. A partir de então, basta aderir a todo um conjunto de doutrinas, liturgias e dogmas para ter assegurada a (re)entrada no paraíso. Em resumo: basta abraçar as normas eclesiais e seguir – sem necessariamente ter de imitar – o Messias ou o Profeta. Algumas religiões afirmam sem cerimônia que, aquele(a) que “aceitar Jesus” no seu coração, já está salvo! Nada mais importa.

Não é mais necessário refletir. Não é mais importante raciocinar. Não importa mais estudar e/ou pesquisar sobre os compêndios deixados pelos grandes espiritualistas, sábios e sábias de todos os tempos. A religião tornou-se uma verdadeira “caverna”, ao estilo platônico, a qual, uma vez acessada, e cumpridas as regras impostas por outros seres humanos que, diga-se de passagem, agem em nome de Deus, praticamente assegura a “salvação” tão desejada, sem maiores esforços intelectuais, com tudo o que o termo possa significar. Todos os sinais são neste sentido e nesta direção. Para quê, então, refletir sobre o fim último do ser humano, se alguém já antecipa tudo, em nome de uma fé que todos devem possuir? Aos que não a possuem, não é recomendada apenas uma reflexão pura e simples, mas, mera petição dirigida a Deus que, gratuitamente, distribui o dom àqueles aos quais Ele julga merecedores.

Veja, os desdobramentos desta linha de raciocínio são muito extensos. Não cabem aqui, neste espaço limitado. Porém, é fácil extrair rapidamente algumas conclusões satisfatórias para o atingimento do seu objetivo. Uma delas é que, ao perderem o interesse pela prática da reflexão, da contemplação do sagrado e pela busca incessante de respostas espiritualistas, aos seres humanos restou apenas, e, tão somente, a ida para o gueto religioso com uma sujeição que, muitas vezes, beira ao fanatismo. E aí, muitos e muitos, com o passar dos tempos, e, notadamente, nas últimas décadas, enxergaram que a prática religiosa institucionalizada nada mais fazia do que colocar todos e todas em uma mesma caixa hermética, com o selo “salvos”. Mas, isto, para o ser humano é deprimente. Ele carece de pensar, de debater, de apresentar suas convicções e suas questões mais perturbadoras. Ele necessita da liberdade para se apresentar diante da divindade, e dela ouvir muitas das repostas buscadas. A criatura quer estar, e necessita estar, em permanente diálogo com o Criador, sem intermediários e, obviamente, sem ser tachada de “louca” ou colocada sob suspeita de esquizofrenia. A criatura quer falar com o seu Deus e quer acreditar que ouve a voz Dele no seu íntimo. Isto é fruto da mais completa reflexão e entrega espiritual. Porém, as religiões cuidam de cercear esta liberdade, fazendo crer que, muito do que se diz é fruto de ilusões ou mesmo de perturbações espirituais e/ou mentais desqualificando, deste modo, qualquer forma de interação do vivente com a espiritualidade, já a partir do diálogo direto com o próprio Deus, como se Ele fosse apenas ouvinte, e não, falante também.

Desta forma, sem interesse e sem o costume do estudo, da pesquisa e dos profundos questionamentos advindos de uma continuada reflexão, mas, também, sem aceitar as imposições normativas da religião, grande parte da humanidade optou pelo afastamento e pela consequente, e assustadora, adesão ao mundo materialista. Um mundo, diga-se de passagem, que não oferece qualquer forma de salvação. Porém, oferece na prática, e na realidade, uma grande possibilidade de realização individual, prometendo, e em muitos casos até mesmo assegurando, a tão sonhada felicidade, tudo o que o ser humano quer para aqui e agora. É claro que o mundo, com seus sistemas perversos, não aceita, sequer, ouvir falar na efemeridade e na transitoriedade da vida. Isto, para o mundo, é sinal de fracasso sistêmico e que, portanto, deve ser abominado!

Bem, diante deste cenário que estou apresentando, e que você pode facilmente comprovar, parece que consigo expor a opinião que me foi pedida. E, antão, você tem diante de si o “algo a mais” de que necessita para aprimorar as conclusões às quais já havia chegado acerca da estagnação espiritual dos seres humanos contemporâneos.

É fácil perceber o enorme mal que a entrega de conclusões prontas causa aos seres humanos, haja vista que, privados da prática da reflexão e mesmo do contato diário com a necessária espiritualidade, estes descambam para o seguimento cego às diversas doutrinas religiosas ou, o que é ainda pior, entregam-se aos prazeres do mundo, e daí só conseguem sair quando, no final da vida, já não encontram mais portas abertas diante de si, tendo como única e indefectível possibilidade, a aceitação do fim de uma existência que poderia ter sido muito mais sadia, rica e capaz de prepará-lo, definitivamente, para uma eternidade que ele desconhece, apenas ouviu falar, porém, sobre ela, sequer, possui qualquer certeza ou convicção.

Talvez você não compreenda, em todos os aspectos, a inteireza de tudo o que acabo de afirmar. No entanto, a partir de tudo o que afirmo, você poderá caminhar para uma reflexão mais aprofundada, mediante a qual poderá encontrar respostas que, no final, servirão para desnudar diante de si o exato perfil do ser humano com o qual temos sido obrigados a conviver.

Sem pretender agir a exemplo das religiões – que já trazem todas as verdades na bandeja da vida, e que não permitem qualquer questionamento – devo reforçar a ideia de que os nossos congêneres contemporâneos não querem mais saber da busca espiritual, ou mesmo da busca por respostas mais fundamentadas, acerca da sua existência e do seu destino final, bem como dos caminhos a serem percorridos para tanto, deixando de lado o interesse, não apenas pelos conceitos puros e simples, da ética e das virtudes necessárias para a transição entre a vida efêmera e a eterna, decidindo optar pela conveniente adesão e pela total vinculação a tudo o que lhes é pregado e constantemente relembrado.

E, fato evidente, tudo o que é pregado e periodicamente relembrado, nada mais faz do que impor limites doutrinários à liberdade intelectual e espiritual. Pensar o quê, sobre o quê e para quê, se tudo já foi pensado, refletido e interpretado como “verdades absolutas”? Assim, nossos pobres semelhantes permanecem algemados no interior da “caverna” e, quando alguns de nós tenta mostrar-lhes que a realidade é bem outra, querem a todo custo a nossa desqualificação intelectual e, se possível, a nossa própria eliminação. Refletir, questionar e procurar por respostas outras, tornou-se coisa essencialmente diabólica. Eis aí tudo o que eu pretendia trazer para você, acerca do tema hoje proposto. Espero ter atendido, de alguma forma, às suas expectativas.

Nunca é demais sublinhar que o resultado destas nossas reflexões não carrega a pretensão de servir como itinerário para a vida de ninguém, senão, e apenas isto, como um ponto de partida para que os leitores possam aprofundar os questionamentos sugeridos ampliando, quem sabe, todo um leque de possibilidades que, ao fim e ao cabo, estão intimamente relacionados com a nossa existência e com o nosso destino final. Portanto, leia, reflita, tire suas próprias conclusões e, se julgar conveniente, compartilhe com outros seres humanos. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Filosofia e estudioso da Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

ago 10

EDITORIAL DA SEMANA: ONDE FICA O CÉU?

ONDE FICA O CÉU

AFINAL, O QUE É E ONDE FICA O CÉU? –

*Por L. A. de Moura –

Você afirma não enxergar qualquer novidade no fato de, a maioria dos seres humanos que professam alguma fé, pretenderem, após a morte, ir para o céu. Não vê novidade e, conforme sustenta, tem idêntica pretensão. No entanto, depois de algumas reflexões, vieram as dúvidas: o que é o céu? Onde fica o céu? Estas são as questões que você traz acreditando que eu, que sou apenas um caminhante e um pensador espiritualista, possa te socorrer e, por fim, ajudar a encontrar respostas minimamente satisfatórias.

Não sei se precisamente eu, poderei satisfazer suas curiosidades acerca do tema. Porém, confesso que já andei refletindo muito e, certamente, cheguei a algumas conclusões que, para mim, foram, e ainda são, bastante satisfatórias. Desta forma, tudo o que posso fazer para te auxiliar, é compartilhar com você o fruto das minhas indagações espirituais e espiritualistas.

Como sou um caminhante, faço o convite para que venha comigo nesta pequena jornada para, juntos, podermos ir adequando pensamentos e conclusões, pretendendo, ao final, chegarmos às respostas postuladas por você. Vamos juntos.

Quando alguém fala sobre o céu, seja lá em que sentido for, a sensação que causa é sempre a de bem-estar e de felicidade. Você, ao comprar uma casa bem situada, em um lugar de paz e de tranquilidade, obviamente soltará a seguinte frase para os amigos: “lá, onde comprei minha casa, é o céu. Um verdadeiro paraíso”. E, a partir desta frase inicial, você começa a desfiar todas as vantagens, todos os benefícios e todas as virtudes encontradas naquele lugar paradisíaco, arrematando desta forma: “quando chego em casa, me sinto no céu”.

Ora, só de se expressar deste modo, você revela ter algum conhecimento acerca do que é, verdadeiramente, o céu: um lugar de paz, de serenidade, de tranquilidade, de completude e, por fim, de realização dos seus maiores sonhos. Com isso, planto no seu coração, uma outra questão: seria o céu, então, um espaço físico até onde todos podemos chegar? Não, não é! O Céu descrito por você, ao falar sobre a casa comprada, é apenas uma soma de virtudes e de qualidades encontradas que, de tão boas, tão magníficas, remetem ao conceito de tudo o que de melhor existe no mundo. Tudo aquilo, para você, equipara-se à noção de Céu que traz guardada na sua alma.

Pois bem, quando você afirma que, ao chegar em casa tem a sensação de estar no Céu, significa que a existência de paz, de serenidade, de tranquilidade, de repouso absoluto e, o mais importante, de uma consciência totalmente desprovida de arrependimentos, conseguem te transportar de uma realidade não tão virtuosa, para uma outra diametralmente oposta. Uma realidade onde você, de fato, se sente realizado e feliz.

No entanto, por se tratar de sentimentos e de realizações vinculados à vida que, por si só, é efêmera e, portanto, transitória, não te asseguram qualquer possibilidade de continuidade. E, se em determinado momento, todo este cenário paradisíaco for modificado, você sentirá muitas saudades daquele, digamos, “Céu” do qual em alguns momentos da vida, você pode desfrutar.

Veja, diante de tudo isto, você tem uma exata noção do que é o Céu. Nesta lógica, o Céu, então, é o gozo da paz, da serenidade, da tranquilidade espiritual e da total ausência de arrependimentos. Em outras palavras: é a plena consciência de ter dado o melhor de si durante todo o tempo e, por fim, ter chegado à plenitude de uma existência.

Porém, uma resposta ainda é devida: onde fica este Céu? Aí, sabendo de antemão que o Céu descrito em razão da casa comprada não é duradouro, porque vinculado à vida que é transitória, você logo imagina que ele fica em algum lugar distante, ainda a ser alcançado. Pensando desta forma, é natural que algum desânimo tome conta do seu ser. No entanto, as virtudes conceituais acerca do Céu, conduzem à convicção de estarmos falando sobre estado de espírito. Ou seja, qualquer pessoa que tenha paz de espírito, que seja tranquila por natureza, que sempre procure dar o melhor de si e que não carregue arrependimentos na alma, tem, dentro de si, o verdadeiro Céu. Um Céu absolutamente espiritual e, quando morre, vai com este Céu unir-se a outros Céus o que, poderíamos denominar como o verdadeiro Reino dos Céus.

Mas, não estou colocando um ponto final nesta reflexão. Tem mais alguma coisa muito importante a ser dita. Você, certamente, conhece a famosa oração do Pai-Nosso, onde se começa dizendo “Pai-nosso, que estás nos Céus... (Mt 6, 9-13)”, não conhece? Veja, o Apóstolo Paulo, chama a atenção dos Coríntios ao lhes dizer: “Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1Cor 3, 16). Pensa comigo: se o Nosso Pai está nos Céus e se o seu Espírito habita em nós, eu te pergunto: onde fica o Céu, senão em cada um de nós? Somos, de fato, partes de um conjunto formado por todos os Céus, nos quais o Senhor habita e reina individual e coletivamente. Isto é representado, inclusive, por meio da saudação indiana do Namastê - "O Deus que habita em mim, saúda o Deus que habita em você".

Porém, observe bem: se o Céu pode estar em cada de nós, por meio de todas as virtudes já descritas, o inferno, da mesma forma, pode estar também, por meio de todas as inversões possíveis e admissíveis.

Deste modo, o Céu que já pode se manifestar na sua vida terrena, invadindo todo o seu espírito e dominando todo o seu ser, é claro e evidente que, após a morte, ele será transportado com o seu espírito para unir-se a outros céus e aí, sim, todos comporão o Reino dos Céus, no qual somente o bem e a justiça dominam de forma única e exclusiva. É óbvio que você, a partir desta reflexão, poderá vir com inúmeras outras indagações. No entanto, não devo ficar, aqui, imaginando coisas que você poderia perguntar. Faça suas reflexões e, em uma outra oportunidade, poderemos voltar ao tema.

O que importa, neste momento, é que você compreenda que o Céu não está lá em cima, ao lado ou lá embaixo. Ele está dentro de você, de mim e de cada um de nós. E tais percepções são possíveis de serem sentidas pela vida que levamos. Quando praticamos o bem, ainda que da forma mais secreta, somos invadidos por um sentimento de realização, de felicidade e de vontade de praticar mais ações benéficas ou benevolentes, porque isso nos traz a paz de espírito, a tranquilidade, a certeza de estarmos fazendo a coisa certa e, em decorrência, uma total e absoluta consciência desabitada por qualquer forma de arrependimento.

“O Reino de Deus”, disse Jesus, “está no meio de vós”! Esta foi a resposta dada pelo Mestre de Nazaré aos fariseus, quando perguntaram: “Quando virá o Reino de Deus?” (Lc 17, 20-21). Assim, compreende-se que, junto de nós, e não lá adiante, está o Céu, o Reino e o próprio Deus, a confirmar que trazemos em nosso interior o verdadeiro Céu. Só depende de nós identificá-lo e por ele zelarmos para que permaneça assim até o dia da nossa redenção.

Desta forma, não acredite que, ao final da sua jornada, será levado para um lugar distante chamado Céu. Não, não será assim, posso te afirmar com segurança. Naquele dia, e naquele momento, o Céu que já deve existir em você, se abrirá totalmente, como uma enorme flor, e seu espírito contemplará toda a real beleza que o Céu possui. A partir dali, então, você seguirá rumo à eternidade e ao verdadeiro e único Reino dos Céus. É o fim absoluto de todas as ilusões. É o retorno à vida como ela sempre foi na realidade. Toda a riqueza do seu Céu será manifestada no seu espírito e então, e somente então, sua alegria e sua felicidade serão completas e indestrutíveis.

O ser humano do mundo não compreende esta linguagem e, de certa forma, repudia-a, porque, apegado ao mundo e às suas ilusões, não aceita nem de longe pensar em dele ser afastado bruscamente pela morte. Dói-lhe fundo na alma tais pensamentos. Você, porém, que traz o protótipo do Céu no seu íntimo, aguarda complacente e feliz o momento do mergulho no oceano divino, quando o seu Céu interior será unido a outros Céus e todos, juntos, comporão o Reino dos Céus.

Para aumentar a sua convicção acerca do tema, sugiro que leia com atenção o Salmo que diz: “Ditoso o homem que não se deixou levar pelo conselho dos ímpios, que não se deteve no caminho dos pecadores, que não se sentou na cadeira dos zombadores, mas que tem a sua vontade posta na lei do Senhor, e nessa lei medita de dia e de noite. Será como a árvore, que está plantada junto às correntes das águas, que a seu tempo dará o seu fruto, e cujas folhas não cairão; e todas as coisas que ele fizer serão prósperas” (Sl 1, 1-3).

O Salmo parece abrir uma porta para o nosso Céu interior, o qual Deus escolheu como morada permanente.

Acredito que minhas palavras, no mínimo, servirão como incentivo para que você faça reflexões mais aprofundadas. Interrogações e dúvidas são próprias do espírito humano. Não se assuste ou se detenha diante delas. Na medida em que forem surgindo, procure travar conversas construtivas. Conversas que, certamente, trarão mais algumas convicções. E, assim, sucessivamente, você, eu e todos nós, vamos caminhando por esta longa estrada da vida, ampliando o nosso Céu interior, facilitando a habitação de Deus para que, no dia fatal, possamos nos unir a outros como nós.

Deixo claro para você, como sempre tenho procurado deixar, que este texto é apenas uma opinião pessoal, fundamentada na longa caminhada e nas diversas experiências e reflexões espirituais e com o próprio Deus. Escrevo, na tentativa de, por algum modo, poder sanar questões que possam vagar por sua alma. No entanto, não precisa, de modo algum, concordar comigo. Faça suas próprias reflexões e tire as conclusões que julgar oportunas e pertinentes. Quem sabe, um dia, possamos estar juntos no mesmo Reino. Seja feliz, e boa sorte!

NAMASTÊ - NOVO ________________________________________________________

*L. A. de Moura é estudante de Filosofia e estudioso da Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

ago 03

EDITORIAL DA SEMANA: O MAL COMO DECORRÊNCIA DE SI MESMO

A FORÇA DO MAL

DE ONDE VEM O MAL, QUAL É A SUA ORIGEM?

*Por L. A. de Moura –

Muitas e muitas pessoas querem saber a razão pela qual o mal está sempre presente no mundo. É difícil, para muita gente, compreender os motivos que levam o mal a duelar com o bem, apesar de Deus, das religiões, das crenças, devoções e seguimentos cultuais. Assim, você tem toda razão de, também, questionar sobre tudo isto. Preocupa-me, no entanto, e muito, o fato de você dirigir tais questionamentos a mim, como se eu tivesse a capacidade para explicar o que teólogos, filósofos e religiosos do mundo todo cansaram de fazê-lo, fornecendo suas versões sem, no entanto, e jamais, terem conseguido de modo satisfatório, dizimar as dúvidas que ainda pairam a respeito do tema.

Entretanto, eu, que não sou nada disso, não passando de um simples  pensador, estudioso e pesquisador, cujo espírito é voltado muito mais para a reflexão, poderei tentar te fornecer, apenas, e, tão somente, um ponto de vista que, por fim, poderá te confundir ainda mais ou, quem sabe, servir como uma faísca capaz de acender uma verdadeira tocha no íntimo da sua alma. Só isso, nada mais do que isso. Vem comigo, então, vamos tentar caminhar um pouco por esta estrada sinuosa e cheia de armadilhas.

Talvez, e na minha opinião, seja fundamental deixar claro, desde o início desta conversa, que não é Deus a origem do mal. Não foi Ele quem criou o mal e, muito menos, quem o introduziu no mundo dos viventes. O mal existe como consequência, como efeito. Vejamos, por primeiro, o que está escrito na narrativa do Livro do Gênesis. Então, disse o Senhor ao homem: “Não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque, em qualquer dia que comeres dele, morrerás indubitavelmente” (Gn 2, 17).

Na mesma narrativa bíblica, vamos encontrar uma personagem cuja atuação foi decisiva para que os seres humanos desobedecessem a ordem divina e, finalmente, tirassem a rolha da lâmpada na qual estava guardado o gênio do mal: a serpente. Figura mítica, mas, que, teve a perspicácia de dizer ao ser humano: “Vós de nenhum modo morrereis. Mas Deus sabe que, em qualquer dia que comerdes dele (do fruto da árvore da ciência do bem e do mal), vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal” (Gn 3, 4-5).

Veja, o ser humano teve interesse, curiosidade, ambição, ilusão ou dê-se lá o nome que quiser, de conhecer “o bem e o mal”. Desta forma, ao destampar a lâmpada mágica da desobediência, viu sair para fora os dois gêmeos – o bem e o mal – e, com eles, a morte, como consequência maior de um ato que não deveria ter sido praticado.

Ora, se bem refletido, a morte é o fechamento de todos os males que afligem o ser humano neste mundo. É, por assim dizer, a decorrência final.

O bem, certamente, seduz a muitos e a muitos leva a uma vida a ele dedicada. E traz, é claro, as devidas consequências. O mal, de igual modo, também, seduz a muitos, graças à satisfação ilusória dos sonhos, das ambições, dos apetites, dos planos e dos projetos de muitos viventes que, ainda hoje, acreditam piamente que, apesar de tudo, a felicidade neste plano terreno existe, está ao alcance de todos e que, portanto, deve ser perseguida e conseguida a qualquer preço. Eis aí a palavra-chave do nosso tema: “a qualquer preço”. De fato, tudo, absolutamente tudo, tem e cobra um preço. Costumo dizer, abrindo um pequeno parêntesis, que a vida é semelhante a um grande restaurante: você chega, entra, senta, pede o prato mais caro do cardápio; pede a bebida mais exótica que desejar; bebe até perder o controle dos seus atos; quebra pratos, garrafas, taças e copos. Briga, quebra mesas e cadeiras, ofende as pessoas. Faz tudo o que estiver ao seu alcance. Atende a todos os seus instintos. Porém, todos os prejuízos causados serão pagos, centavo por centavo. Quem pagará? Ora, o que importa é o pagamento.

Então, e fechando o parêntesis, a busca pela felicidade, e não raro pelos  desjos e prazeres da vida, cobra o devido preço. Quem sai em busca de tudo o que o mundo tem a oferecer, “a qualquer preço”, sem pensar sobre quem terá de pagá-lo, certamente vai realizar tudo o que planejou. Nada ou ninguém poderá detê-lo. Entretanto, as consequências virão e, certamente, cairão sobre muitos que, nem sempre, têm algo a ver com os atos praticados. Isto, porque, quem pode, e enquanto pode, se defende da imediatidade das consequências advindas dos atos erráticos que praticou. No fim, porém, muitas vezes já sem recursos e sem forças acaba, também, sucumbindo à voracidade do mal.

Você poderia, então, questionar: Mas, como é possível que um justo pague pelos atos do injusto e do ímpio? Veja, o mal não escolhe a quem vai atingir. Ele vem como a fúria de uma tempestade que assola e, muitas vezes, destrói tudo e todos os que estão na sua direção. Lembra da historinha do restaurante? Tudo deverá ser ressarcido. Para o dono do estabelecimento não importa quem pagará a conta. Ele quer receber por tudo o que foi consumido e destruído. Imagine, por exemplo, o caso de uma criança sozinha em casa. A mãe, para encontrar-se com o namorado na rua, esquece uma panela de  pressão no fogão, com o queimador aceso. Se ela fica com o namorado por um tempo prolongado, suficiente para que a panela exploda, certamente, a criança será fortemente atingida, sem ter culpa de absolutamente nada. As consequências só deixam de ocorrer, se o ato for interrompido a tempo.

Quem pesquisou e descobriu a fusão do átomo, e daí concluiu que poderia construir uma bomba atômica, para subjugar e dominar povos e nações, por arrogância, ambição ou vingança, levou o mal e a destruição a milhares de inocentes porque a bomba, depois de acionada, tem como consequência única realizar o que dela é esperado: a explosão radioativa de altíssima potência e magnitude. Aquele que cria uma bactéria em laboratório e que, eventualmente, perde o controle da sua criação, leva dor, sofrimento e morte a centenas, milhares de pessoas, absolutamente inocentes. O que eu quero dizer é que o mal é decorrente de atos praticados por alguém, de algum modo, em algum lugar e com alguma pretensão ou finalidade. Daí ser fácil concluir que, todas as vezes que praticamos o bem, as consequências, também, são inevitáveis e, assim, contribuímos para a felicidade de muitos e muitos, os quais não nos são conhecidos, mas que, indiretamente, recebem os frutos do bem que praticamos.

A partir daí, você pode refletir melhor, e verificar quanto mal é praticado no mundo, todos os dias, em todos os setores da vida, a começar pelas agressões à própria natureza. E quais são as consequências? São as piores possíveis. E quem as sofre, direta ou indiretamente? Toda a humanidade. As feridas causadas à natureza trazem como consequências os desastres naturais, a doença do ar, do solo e do subsolo, a infecção dos rios e dos mares, afetando milhões de pessoas e de outros seres vivos em todo o mundo. Com o ar, a terra, os rios, os mares e o subsolo fortemente atingidos, vêm as doenças, graves ou gravíssimas, a fome, a desnutrição e... mais doenças e mortes, numa escalada sucessiva de males que vão se multiplicando ao infinito. Tudo, porque alguém, em algum momento e lugar, decidiu que pode agredir a natureza, que nada acontece. Ora, os males e os sofrimentos daí decorrentes são, ou serão, suportados por quem? Justamente por todos aqueles que, ao contrário, vivem defendendo o respeito para com a natureza. No entanto, as consequências pelos erros cometidos já estão fora de controle. Lembra da figura mítica da serpente? “Vós de nenhum modo morrereis”.

É justo atribuir o mal a Deus? É justo afirmar que Deus deveria livrar o ser humano de tantos males, quando é o próprio ser humano o provocador e causador de tudo isto? O próprio Deus (encarnado) sofreu as consequências da maldade humana. Desta forma, acho que você concordará que o ser humano é o único responsável por todo o mal que existe no mundo, haja vista partir dele a prática de todos os atos capazes de gerar consequências absolutamente desastrosas para todos os demais seres vivos, sem qualquer distinção ou exceção.

Alguns cientistas humanistas já conseguiram demonstrar o quanto de bem decorre da prática do bem. Sobre o mal pode-se firmar o mesmo raciocínio!

Portanto, o que estamos enfrentando, atualmente, todos os males que estão despencando sobre as nossas cabeças, certamente, decorrem de atos malignos, maldosos, mal planejados, maliciosos ou mal executados por algum ou alguns dos nossos congêneres. Pessoas que, em algum momento das suas vidas, desejaram “ser como deuses, dominando o bem e o mal”.

Como antecipei para você, desde o início desta nossa conversa, não tenho a pretensão de explicar o que muitos sábios já tentaram sem sucesso. Porém, deixo para você, apenas, a minha opinião sobre o assunto. Daí para a frente, fica com você a missão de tentar encontrar alguma outra resposta que possa ser mais satisfatória.

Por fim, peço que observe que, se a humanidade quisesse extinguir o mal, bastaria fazer quase tudo de forma muito diferente do que tem feito. Fazendo e ensinando às futuras gerações. Caso contrário estaremos, simplesmente, experimentando a primeira de muitas outras pandemias com características iguais ou muito piores do que esta. E que ninguém se atreva a colocar a culpa em Deus, como tem ocorrido vez por outra, acreditando e disseminando a crença de que o Criador envia o castigo para redimir os pecados da humanidade, ou coisas do gênero. Não é castigo, não são castigos. São consequências decorrentes de tantos males praticados ao longo do tempo. Pratique-se o bem, e as consequências também haverão de ser derramadas sobre nossas vidas. Dizia São João de Deus, ao pedir que os ricos cuidassem dos doentes e inválidos: "Fazei o bem a vós mesmos, socorrendo os que jazem pelas ruas, maltratados por tantas e tantas enfermidades".

Espero que você obtenha sucesso na busca por explicações mais “científicas” acerca da presença do mal. Apesar da ciência e das tantas explicações que ela promove, o mal está aí, cada dia mais presente, mais forte e mais expansivo. Se este texto te aproveita para alguma coisa, faça bom proveito. Caso contrário, a tecla DEL do seu dispositivo pode resolver o problema, sem qualquer consequência previsível. De qualquer forma, seja feliz, e boa sorte!

NAMASTÊ - NOVO ___________________________________________________________

*L. A. de Moura é estudante de Filosofia, estudioso da Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

Vídeo

O CINISMO DE CADA DIA

MENTIRA E CINISMO

A ERA DO CINISMO E DOS SEUS INCONFUNDÍVEIS ADEPTOS –

*Por L. A. de Moura –

Imagine que você, eu e muitos outros, todos os dias, assistimos e lemos nos meios de comunicação, diversos por sinal, as chamadas dos maiores bancos do país, oferecendo os melhores serviços presenciais, em tempo recorde, com gerentes, caixas e demais funcionários aptos e prontos para o imediato e eficiente atendimento. Nós, que viemos de outro Planeta, acreditamos e, já no dia seguinte, caminhamos em direção de um destes prestigiados bancos, na esperança de que, tal qual é dito na propaganda, seremos, realmente, atendidos da forma mais respeitosa e eficiente desejada. Até porque, o narrador da proposta televisiva, no caso, diz com todas as letras: “estamos aqui para fazer o possível e o impossível para que você tenha o melhor de nós”.

Ocorre que, quando adentramos na primeira agência daquele estabelecimento bancário, eufóricos e, certamente, necessitados, até porque ninguém vai ao banco passear, procuramos por um atendente que esteja pronto para nos direcionar. Então, para a nossa primeira surpresa, nos deparamos com uma mocinha bonita, mas, que, olhando para a nossa cara e, certamente, não gostando muito do que vê, demonstra certa antipatia. Mas, como estão lhe pagando para executar o trabalho, resolve dizer apenas: “precisa pegar uma senha, senhor. Pega a senha e aguarda ser chamado”.

Ora, já neste momento, eu ou você, percebemos que o tal “fazemos o possível e o impossível para que você tenha o melhor de nós” é meio fantasioso, porque, o que queremos, e até esperávamos, era que o atendimento fosse, realmente, rápido.

Mas, não, não é assim. Pegamos a tal senha e, não nos enquadrando em nenhum dos casos preferenciais (você conhece todos de cor), sentamos em uma espécie de auditório e ali ficamos. Existe lei impondo o tempo máximo de espera, mas, o tal banco, com certeza, finge desconhecer. A gente olha para as mesas dos atendentes que, normalmente, são designados como “gerentes”, e vemos que, para uma pequena multidão de vinte pessoas, existem apenas três destes ilustres gerentes que, pelo que demonstram, não têm a menor pressa no atendimento que estão fazendo. Até aí tudo bem. Cada cliente merece a máxima atenção. Mas, o caso é outro. O caso é que, cada cliente traz um problema mais complexo do que o outro. Complexo, no sentido de “mais trabalhoso”. Então, o tal gerente sente uma espécie de prazer em ficar retido com o cliente do momento o máximo que puder.

E a gente fica esperando. Liga o celular (graças a Deus inventaram o celular que, com a bendita internet, permite sofrer calado e distraído). O tempo vai passando e, depois de uns vinte minutos, com a fila de sentados andando bem lentamente, aparece um rapazinho simpático e começa a perguntar a um por um o que, afinal, deseja resolver com os prestativos “gerentes”. Neste momento a fila começa a diminuir drasticamente, porque cada pessoa vai sendo redirecionada para um outro setor do banco, quando não recebe a triste notícia de que aquele banco não executa a operação desejada. Este triturador de filas chega até você, ou diante de mim e, ao repetir a pergunta, descobre, e informa-nos com alegria, que o caso exige a apresentação de uma série de cópias de documentos, cuja lista pode ser pedida no segundo andar, para onde somos direcionados e, novamente, enfrentamos o relógio.

O resto não precisa ser dito, porque nós conhecemos perfeitamente onde vai desaguar. O fato é que, aquela propaganda feita na televisão e repetida com fotos nítidas e caprichadas nas revistas e jornais de livre circulação, revela-se absolutamente mentirosa, enganosa. Ou seja, eu e você acabamos concluindo que o que impera no campo da propaganda é o cinismo. Ou seja, apresenta-se o produto como se fosse a quintessência da qualidade e da grandeza quando, na verdade, nada do que é informado sobre ele corresponde com a verdade. Tudo é detalhadamente planejado para nos conduzir até o estabelecimento bancário na esperança de que, no fundo, nós não tenhamos nenhum problema para resolver, mas, dinheiro para aplicar em abundância. Obviamente que, quando é este o caso, o sujeito não fica em fila alguma. Já chega falando grosso e logo, logo, deixa claro que o bolso está pesado. Neste caso, e apenas neste caso, a propaganda revela ser verdadeira. Rapidez no atendimento. Cafezinho, puro ou com leite. Biscoitinhos salgados e doces. Gerente, homem ou mulher, simpático, atencioso e disposto a tudo para que seja deixado ali o melhor que o sujeito tem para oferecer; o dinheiro!

Idêntico raciocínio vale para o supermercado, para a drogaria, para a padaria, para o restaurante etc. É cinismo atrás de cinismo e a gente pensa: será que é tudo assim? Será assim na política, nas universidades, nos cursinhos de idiomas, nas igrejas, nas instituições públicas abrilhantadas pelos famosos brasões?

Meu amigo, minha amiga, não quero ser cínico com você, nem tentar te iludir para evitar sua tristeza: é tudo assim, deste jeito. E não tem jeito.

Há pouco tempo fui a um banco público (famoso por sua alardeada “excelência” no atendimento e na prestação de serviços) e, já conhecido da mocinha simpática, pedi a famosa senha. Deu-me a senha nº 1 e, sorrindo, me disse: “olha, que sorte, o senhor será o primeiro a ser atendido”, que bom, disse eu. Subi as escadinhas que conduzem ao primeiro andar. Quando cheguei, percebi que existiam apenas funcionários do banco naquele ambiente. Cada um na sua mesinha, completamente envolvidos com a tela do computador. Por trás de uma baia de vidro martelado, dava para perceber a presença de um “gerente”, com o seu querido e saboroso jornal aberto de ponta a ponta. Sentei-me e pensei: Talvez, assim como eu o percebo do outro lado, ele, também, consiga perceber que, do lado de cá, existe alguém aguardando para ser atendido.

Ledo engano. Fiquei ali por longos quinze minutos até que, de repente, chega uma pessoa conhecida, com pressa, e perguntou para mim: “tem alguém atendendo?” Eu disse que não e que já estava ali por uns quinze minutos. Com a cabeça, mostrei-lhe que tinha alguém do outro lado lendo jornal. Minha conhecida, então, aguardou por mais uns cinco minutos e, não suportando esperar, levantou-se e perguntou ao sujeito a que horas começaria o atendimento, ao que ele retrucou: “já vou chamar, aguarda um instante por favor”. Passados mais uns cinco minutos, chamou o primeiro que, por acaso, era eu. O resto, deixa pra lá.

Este grande banco público não sai de cena. Figura em quase todos os canais de televisão oferecendo mundos e fundos, patrocina atletas de diversas modalidades de esportes. Enfim, é tudo mentira! O cinismo impera entre nós.

Poderia falar, ainda, do cinismo na política, mas, penso comigo: será necessário? Acho que você sabe muito bem o que se passa do Arroio ao Chuí, do Leste ao Oeste do País, sem exceção!

Com o comércio, em geral, não vale à pena perder tempo. O que dizer, ainda, sobre as incontáveis religiões? Vai, sem se preocupar com o dia ou com a hora, em qualquer templo ou igreja e procura lá pelo pregador, para resolver um problema pessoal ou familiar. Faz isso pra ver se será atendido ou atendida prontamente. Agora, como aquele sujeito do banco, cheio de dinheiro, faz a mesma procura no âmbito religioso, para doar uma significativa quantia, para ver se o atendimento precisa ser agendado ou se existem dias previamente determinados para esta modalidade de atendimento.

Talvez o problema seja apenas comigo, pode ser, mas, recentemente, precisei aguardar por mais de seis meses para ter um pedido analisado por uma autoridade eclesiástica, que administra uma universidade religiosa. E mesmo assim, só obtive uma resposta porque enviei-lhe uma carta (pelo correio mesmo, registrada e tudo!), identificando-me como seu “irmão”, alegando sermos, eu e ele, filhos do mesmo Pai do Céu e, por fim, reiterando a fala de Jesus em Mateus 7, 12 (“tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles; esta é a lei e os profetas”). Mesmo sem me receber, conforme havia solicitado, parece que ele se tocou e, sentindo-se, talvez, meio emparedado, mandou uma secretária me ligar para dizer o famoso óbvio: “Ele pediu para dizer que, infelizmente, não podemos fazer nada pelo senhor”. Eu procurei agendar uma conversa, porque pretendia, pessoalmente, frente a frente, expor uma situação fática e tratar acerca de um projeto de estudo e de pesquisa em andamento. Falhou! Não deu. Eu não tinha nada para oferecer, apenas, para pedir. E para tal, a propaganda não faz qualquer previsão. Fica ao alvedrio de quem está no comando. Seja o que Deus quiser. Alea jacta est!

Portanto, meu caro, minha cara, não tenha ilusões diante das mais diversificadas propagandas, profanas ou religiosas, quase tudo está envolto na ilusão e no cinismo. Dizem, propagam e advogam uma coisa quando, na verdade, revelam uma realidade muito, absolutamente, totalmente diferente do que é propagandeado aos quatro ventos. Porém, como cristão que sou, sempre repito Jesus: “tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles; esta é a lei e os profetas” (Mt 7, 12). Reflita, não se desespere e siga em frente. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

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