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Sementes da Palavra, É tempo de semear

Arquivo por categoria: TEMAS DIVERSOS

mar 06

AS SANTAS DO MÊS: PERPÉTUA E FELICIDADE – MÁRTIRES

SANTAS PERPÉTUA E FELICIDADE

AS SANTAS DO MÊS DE MARÇO –

7 de março

Santas Perpétua e Felicidademártires

*Frei Alberto Beckhäuser, ofm –

Com outros companheiros, Perpétua e Felicidade sofreram o martírio em Cartago, atual Tunísia, no ano de 202. Um decreto do imperador Setímio Se­vero, que atingia, sobretudo, os que se preparavam para o batismo, levou à prisão vários catecúmenos do norte da África. Entre eles se achavam a escrava Felicidade e sua nobre senhora Víbia Perpétua. Felicidade estava no oitavo mês de gravidez e Perpétua tinha um filho de colo. Todos foram levados a Cartago, onde foram martirizados.

Possuímos uma peça literária de comovente beleza, denominada Paixão de Santa Perpétua, que conta a história dos últimos dias das jovens mártires, bem como o martírio junto com os demais catecúmenos de um diácono que batizou os catecúmenos na eminência do martírio. Estas Atas do martírio constituem um dos documentos mais realistas e emocionantes do cristianis­mo primitivo. Elas englobam notas autobiográficas que Perpétua escreveu na prisão. Comovente, sobretudo, o duelo entre o amor filial e o paterno e as exigências da fé em Cristo, quando o pai pagão fez de tudo para demovê-la do martírio.

Os homens catecúmenos com o diácono Sáturo foram atirados às feras e estraçalhados por elas até a morte. Perpétua e Felicidade, que dera à luz uma menina na prisão, foram atiradas à arena para serem atacadas por uma vaca furiosa que as devia levar à morte. Perpétua, lançada aos ares pela vaca brava, caiu de costas. Levantou-se logo e, vendo Felicidade caída, aproximou-se e deu-lhe a mão para erguê-la. Ficaram então de pé, rezando, até o momento em que foram degoladas.

As Atas das mártires terminam com estas palavras: “Os que foram testemunhas destes fatos lembrar-se-ão da glória do Senhor, e aqueles que deles tiverem conhecimento por esta narrativa estarão em comunhão com os santos mártires e por intermédio deles com Jesus Cristo, Nosso Senhor, para quem são a honra e a glória pelos séculos”.

O registro da paixão de Santa Perpétua e de Santa Felicidade e seus companheiros constitui um dos maiores tesouros hagiológicos que chegaram até nós. No século IV, essas Atas eram lidas publicamente nas igrejas da África.

As santas Perpétua e Felicidade figuram no Cânon romano (I Oração eucarística). O que indica a alta veneração de que gozaram na Antiguidade.

Podemos realçar vários aspectos do testemunho dessas mártires. A dignidade e a importância em que eram tidos os catecúmenos na Igreja primitiva. Quem está a caminho dos sacramentos da Iniciação cristã já são considerados membros da Igreja. Diz a Introdução Geral do Ritual do Batismo de Adultos: “Desde então (isto é, desde o rito de instituição) os catecúmenos, cercados pelo amor e a proteção da Mãe Igreja como pertencendo aos seus e unidos a ela, já fazem parte da família de Cristo; são alimentados pela Igreja com a Palavra de Deus e incentivados por atos litúrgicos. Tenham a peito, portanto, participar da liturgia da Palavra e receber as bênçãos e os sacramentais. Quando se casam, se o noivo e a noiva forem catecúmenos, ou apenas um deles e a outra parte não foi batizada, será usado o rito próprio. Se falecerem durante o catecumenato, realizam-se exéquias cristãs” (n. 18). Podemos dizer que eles já estão justificados pela fé.

Um segundo ponto a realçar é o combate da paixão. O martírio constitui um combate com Cristo contra os inimigos da fé, contra todas as forças do mal. Quando se fala da paixão dos mártires, ela compreende todos os sofrimentos suportados por causa da fé em Cristo Jesus. Ela inclui a própria morte. Os sofrimentos da paixão constituem a confessio, a confissão da fé. Se os catecúmenos ainda não forem batizados, eles são batizados pela paixão, isto é, pelo batismo de sangue.

Uma terceira observação. O batismo de sangue, o martírio não se apresenta como privilégio dos homens considerados fortes no combate. No martírio, particularmente das mulheres, manifesta-se a força do testemunho no poder do Espírito Santo. Esta força vem expressa na Oração coleta: Ó Deus, pelo vosso amor, as mártires Perpétua e Felicidade resistiram aos perseguidores e superaram as torturas do martírio. Pelo amor a Deus, a exemplo das mártires, possamos crescer constantemente na caridade.

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*BECKHÄUSER, Frei Alberto, ofm. OS SANTOS NA LITURGIA – Testemunhas de Cristo. Petrópolis. Vozes: 2013. 391 págs.

mar 06

PATROLOGIA: O FAROL DO CRISTIANISMO

farol de alexandria - 2

PATROLOGIA[1]: O FAROL DO CRISTIANISMO

Conta a história que uma das sete maravilhas do mundo, na antiguidade, era o farol de Alexandria, ou farol de Faros, justamente por ter sido construído – por ordem de Alexandre, o Grande – na Ilha de Faros, em Alexandria. O referido monumento, segundo nos informa o escritor Theodore Vrettos, foi construído em três seções distintas, sendo que, somente a base tinha mais de cem metros de extensão e era sustentada por blocos maciços de granito. Segundo o Autor, na terceira seção, a mais alta de todas, ficava a torre cilíndrica que levava à câmara do farol, “onde uma fogueira ardia dia e noite. Os marinheiros reconheciam o fogo e orientavam seu curso de acordo com ele, pois o farol era visível a centenas de milhas mar adentro” (VRETTOS, Theodore. Alexandria: A cidade do pensamento ocidental. São Paulo. Câmara Brasileira do Livro. Odysseus: 2005, p. 54).

Por que estamos falando sobre o farol de Alexandria numa página na qual pretendemos tratar da Patrologia? Justamente porque a Patrologia, para o cristianismo de todos os tempos tem a mesma importância do referido farol. Enquanto este último era destinado a orientar os navegantes do mar bravio, na direção segura do Grande Porto, a Patrologia é destinada a orientar os cristãos de todas as épocas, na direção segura do Evangelho.  Mirar o farol de Alexandria significava ter certeza de que a navegação estava na direção correta, ou, quando não, ao menos a tempo de ter corrigida a rota. Mirar a Patrologia é ter a certeza de que está-se no caminho de Jesus, percorrido pelos discípulos e seus sucessores. Eis a razão de o título desta página ser, orgulhosamente: Patrologia: O farol do cristianismo. Que todos os leitores desta página mirem este novo farol – que não é mais a sétima maravilha, mas, a única maravilha do nosso mundo – e que cheguem aos Pais da Igreja e, por intermédio deles, aos discípulos e, na mesma linha, a Jesus Cristo. Esse é o nosso objetivo, que pretendemos alcançar publicando todas as semanas matérias relacionadas ao período patrístico.

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POLICARPO DE ESMIRNA

Pretendemos iniciar nosso trabalho com aquele que teria bebido direto na fonte do discipulado de Jesus, como amigo e auxiliar do Apóstolo João: Policarpo, ordenado bispo de Esmirna pelas mãos do próprio apóstolo João, segundo Tertuliano, e tendo a ele endereçada a menção do Anjo que no Apocalipse manda que João “Escreva ao Anjo da Igreja de Esmirna. Assim diz o Primeiro e o Último, (...): Conheço tua tribulação e tua pobreza. Mas tu és rico. (...) Não tenhas medo do sofrimento que vai chagar. O diabo vai levar alguns de vós para a cadeia (...) Sê fiel até à morte. Eu te darei em prêmio a coroa da vida” (Ap 2, 8-10). A Carta aos Filipenses é o documento a ser consultado, para que dele se extraia toda a grandeza do caráter, da formação e da personalidade de Policarpo. Temos, ainda, o valioso testemunho de Ireneu de Lião, que teria sido seu discípulo:

“Podemos ainda lembrar Policarpo, que não somente foi discípulo dos apóstolos e viveu familiarmente com muitos dos que tinham visto o Senhor, mas que foi estabelecido bispo de Ásia, na Igreja de Esmirna, pelos próprios apóstolos. Nós o vimos na nossa infância porque teve vida longa e era  muito velho quando morreu com glorioso e esplêndido martírio. Ora, ele sempre ensinou o que tinha aprendido dos apóstolos, que também a Igreja transmite e que é a única verdadeira. E é disso que dão testemunho todas as igrejas da Ásia e os que até hoje sucederam a Policarpo, que foi testemunha da verdade bem mais segura e digna de confiança do que Valentim e Marcião e os outros Perversos doutores” (Adv. haer. 3, 2-4).

Ainda segundo Ireneu, Policarpo teria viajado até Roma, quando era bispo de lá Aniceto – o décimo sucessor de Pedro – por volta do ano 155, para discutir acerca da data da celebração da Páscoa que, enquanto os asiáticos celebravam no dia 14 do mês judaico de Nisan, os cristãos romanos celebravam-na sempre no domingo, dia da ressurreição. A questão, obviamente, não foi decidida naquele encontro. Para que se tenha uma ideia da polêmica, ainda no ano de 170, o Papa Vítor queria impor aos asiáticos a celebração conforme praticada pelos ocidentais.

Eusébio de Cesareia, na sua História Eclesiástica, conta que aconteceu em Esmirna uma fortíssima perseguição contra os cristãos e que nesse tempo Policarpo estava escondido fora da cidade. No entanto, um dos seus escravos, preso e torturado, decide indicar para as autoridades o esconderijo de Policarpo que é imediatamente preso e conduzido para Roma para, no circo, ser queimado vivo. O historiador relata, ainda que “Quando entrou na arena, os cristãos gritavam: ‘eis o doutor da Ásia, o pai dos cristãos, o destruidor de nossos deuses’”.

Eusébio de Cesareia, fazendo referência a uma carta “em nome da Igreja à qual ele presidia, dirigida às Igrejas do Ponto”, expõe para a história os fatos ocorridos durante o padecimento de Policarpo a partir de sua chegada ao estádio:

“No estádio, o tumulto era tão grande que mal se escutavam as palavras. Ao entrar Policarpo no estádio, veio uma vós do céu: ‘Sê forte, Policarpo, sê homem’. Ninguém viu quem falava, mas muitos dos nossos ouviram a voz.”[2]

Ora, enquanto o conduziam, houve grande tumulto da parte dos que ouviram dizer ter sido preso Policarpo. Ele adiantou-se e então o proconsul perguntou se ele era, de fato, Policarpo. Ao obter a resposta afirmativa, exortou-o a renegar (o nome de Cristo), dizendo: “Tem piedade de tua idade!’, e frases semelhantes, conforme se costuma dizer. Acrescentou: ‘Jura pela fortuna de César! Muda de opinião e dize: ‘Abaixo os ateus!’. Então, Policarpo, fitando severamente a multidão presente no estádio, estendeu a mão contra eles, suspirou, olhou para o céu e disse: “Abaixo os ateus!.”

Insistiu o proconsul, dizendo: ‘Jura e eu te liberto. Amaldiçoa a Cristo.’ Policarpo disse: ‘Há oitenta e seis anos que o sirvo e ele jamais me fez mal. como posso blasfemar a meu rei, meu salvador?’

O proconsul insistiu ainda e disse: ‘Jura pela fortuna de César!’ Policarpo replicou: ‘Se esperas em vão que hei de jurar pela fortuna de César, como dizes, e finges ignorar quem sou eu, escuta, falo com franqueza: Sou cristão. Se queres aprender a doutrina do cristianismo, dá-me o prazo de um dia e escuta.’

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[1] Patrologia é a ciência que trata a literatura cristã antiga em todos os seus aspectos e com todos os métodos apropriados. (Cf. DROBNER, Hubertus R. Manual de Patrologia. 2ª Ed. Petrópolis. Vozes: 2008, p. 14).

[2] CESAREIA, Eusébio de. História Eclesiástica. Patrística. Vol.  15. 2ª ed. São Paulo. Paulus: 2008. P. 192.

  [2] CESAREIA, Eusébio de. História Eclesiástica. Patrística. Vol.  15. 2ª ed. São Paulo. Paulus: 2008. P. 192.

mar 06

O MAIOR DENTRE TODOS OS ESCRITORES

DOSTOIÉVISK

A ESTRELA DE SÃO PETERSBURGO

Nosso personagem de hoje é Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski, um dos mais importantes escritores russos, senão o mais importante, de todos os tempos. Filho do médico Mikhail Andréievitch Dostoiévski e Maria Fiódorovna, Fiódor Dostoiévski nasceu em Moscou, em 03 de outubro de 1821, numa Rússia marcada pela Insurreição Decabrista, levante popular com oito horas de duração, ocorrido logo após a morte repentina de Alexandre I e a coroação de Nicolau I, em decorrência da calamidade social vivida por causa do comportamento dilatório de Alexandre e do desejo dos círculos mais brilhantes e cultos da oficialidade russa, de transformar a Rússia segundo o modelo das ideias liberais e democráticas do Ocidente.

A vida de Dostoiévski é muito intensa e marcada por fatos e dramas pessoais que fizeram dele o escritor predileto dos meios intelectualizados nascidos a partir de meados do século XIX. O primeiro drama pessoal vivido por ele foi a morte de Maria Fiódorovna cumulada com a decisão do pai e enviá-lo, juntamente com o irmão Mikhail para a Academia de Engenharia Militar.

Aquele que talvez tenha sido o último biógrafo de Dostoiévski – Joseph Frank – conta que “O conflito entre o desejo de partir e as expectativas de um futuro sombrio explica provavelmente a persistência de misteriosa doença que o atacou às vésperas da viagem. Repentinamente e sem qualquer causa aparente, Fiódor perdeu a voz, parecendo ter contraído uma afecção da garganta ou dos pulmões de diagnóstico indefinido. A moléstia não cedia aos tratamentos e, por isso, a viagem para São Petersburgo teve de ser adiada até que o doente se recuperasse. Por fim, os médicos aconselharam o Dr. Dostoiévski a iniciar a viagem de qualquer maneira, na esperança de que a mudança de ambiente surtisse efeitos benéficos sobre o paciente. Andrei (irmão caçula) afirma que, desde então, a voz do irmão adquiriu um certo timbre gutural e nunca mais pareceu normal.”[1]   

Outro drama na vida de Dostoiévski foi o seu envolvimento com o chamado Círculo de Petrachévski, cujo nome deriva do seu mentor, Mikhail Butachévitch-Petrachévski, cuja finalidade era reunir jovens dos círculos intelectuais para debater ideias socialistas. Frank esclarece que “Dostoiévski, porém, não tinha nada a aprender sobre o socialismo com pessoas tão fanáticas quanto Petrachévski ou Daniliévski, nem era um discípulo devotado à propagação desse evangelho. Concordava de todo o coração com o impulso moral que inspirava os diverso sistemas socialistas, mas não estava convencido de que todas as suas panaceias pudessem ser postas em prática. [O socialismo oferece milhares de métodos para organizar a sociedade], observa, [e como todos esses livros são escritos com inteligência, eu os leio com curiosidade. Mas justamente porque não sou adepto de nenhum dos sistemas socialistas, estudei o socialismo em geral, todos os seus sistemas, e é por isso que (embora meus conhecimentos estejam longe de ser completos) enxergo erros em todos eles. Estou certo de que a aplicação de qualquer um deles acarretaria um inevitável desgraça, e não me refiro apenas ao nosso caso, mas até ao caso da França].”[2]

Por causa desta simples participação nas reuniões que, no final das contas eram bastante animadas, Dostoiévski foi detido na noite de 22 de abril de 1849, por ordem direta de Nicolau I, tão logo terminou de ler o relatório especialmente preparado para ele pelo conde A. I. Orlov, chefe da Terceira Seção da Chancelaria Imperial de Sua Majestade, mais conhecida como “Polícia Secreta”. Após algumas sessões de interrogatórios extremamente cansativos, e sofrendo com as condições da cela em que se encontrava, foi emitida a sentença de... morte, a ser executada por um pelotão de fuzilamento. No dia marcado para as execuções (de Dostoiévski e outros companheiros), todo um cenário foi na Praça Semenóvski : um tablado retangular foi construído, com cerca de nove metros de altura, coberto de cima embaixo por um pano negro, uma escadinha foi criteriosamente colocada no centro, mas, segundo o biógrafo de Dostoiévski, “o que mais chamou a atenção foi um grupo formado por seus antigos companheiros, reunidos na neve e trocando emocionados cumprimentos após sua longa separação.[3]” Tudo preparado para o triste espetáculo. Todos os condenados, incluindo Dostoiévski, já haviam passado pelos despedimentos com amigos e familiares. Encaminhados para o tablado, ouviram o ruído agudo e metálico dos soldados tomando posições. Todos receberam a ordem para colocarem-se a postos, com as cabeças descobertas, para ouvirem suas sentenças. O frio era cortante, o que levou muitos dos condenados e hesitarem um pouco ao receberem a ordem para descobrir a cabeça, no entanto, tendo atrás de si outra leva de soldados, tiveram seus capuzes arrancados a força. Em determinado momento, um funcionário do governo leu a confirmação da sentença de execução, nos seguintes termos: “A Corte Criminal condenou todos à morte por fuzilamento e, no dia 19 de dezembro, Sua Majestade, o Imperador, escreveu pessoalmente: ‘Confirmado’”[4]. Os presos, imediatamente deram-se conta de que o momento final se aproximava e Dostoiévski virando-se para um dos companheiros de infortúnio – Serguei Dúrov – disse meio que incrédulo: “Não é possível, eles vão nos executar[5], ao que o companheiro respondeu apontando para uma carga postada atrás do patíbulo, que parecia tratar-se de caixões empilhados e cobertos por uma espécie de esteira de palha. Um padre foi disponibilizado para, num último ato, conseguir a declaração de arrependimento dos condenados, sem obter sucesso. Em determinado momento três dos sentenciados foram seguros pelos braços, por soldados, sendo encaminhados para um dos lados do patíbulo, onde foram convenientemente amarrados num poste, com as mãos para trás. Frank narra que “Ordenaram que os três homens tirassem os gorros da cabeça, mas Petrachévski, numa atitude de desafio, jogou o seu para trás e olhou fixamente para o pelotão de fuzilamento, que tinha armas apontadas para eles, por ordem do comandante. Dostoiévski estava entre os três seguintes na fila da qual tinham escolhido o primeiro grupo, e estava absolutamente certo de que, dentro de minutos, chagaria a sua vez[6]”. Foram momentos de intensa tortura psicológica: os preparativos, o frio cortante, as armas apontadas, o medo e a certeza da morte iminente e uma espera secular. 

Tudo isso já seria suficiente para punir qualquer um de forma severa, muito mais a um inocente como era o caso de Dostoiévski que, não participara de qualquer organização revolucionária contra o Czar. Seu erro foi, em poucas palavras, envolver-se com intelectuais rebeldes que, não encontrando atividade mais promissora, decidiram debater uma forma de reformular toda a vida política e social da Rússia. Bem, vamos aos fatos. Em determinado momento, alguém se lembrou de que faltava acorrentar os condenados, e, imediatamente foram jogadas pesadas correntes no patíbulo, fazendo-o estremecer. Tudo pronto, rufaram os tambores, precedentes à ordem para atirar em todos. O biógrafo de Dostoiévski conta que “Nesse meio tempo, entrou em cena, a galope, um ajudante de ordens trazendo o perdão do czar e as verdadeiras sentenças. Os documentos foram lidos diante dos prisioneiros atônitos; uns receberam as notícias com alívio e alegria, outros com perplexidade e ressentimento[7].” A pena recebida por Dostoiévski foi o envio imediato para a Sibéria, onde passaria longos e terríveis dez anos.

A vida de Fiódor Dostoiévski, no entanto, não foi só drama, sofrimento e melancolia. Foi, também, a de um brilhante escritor, com obras memoráveis, como, apenas a título de exemplo, Gente Pobre, publicada em 1846, quando ele tinha apenas 26 anos de idade; Memórias do Subsolo, O Idiota, Os Demônios e Os Irmãos Karamázov. Sua obra é vasta, com inúmeros outros títulos tão famosos quanto os já citados. Apenas para que o leitor desta coluna tenha uma ideia, a biografia de Fiódor Dostoiévski, escrita por Joseph Frank, é composta por CINCO longos volumes que, no total, contam com mais de três mil páginas, sendo que o 5º e último volume tem incríveis 932 páginas! Vale pena Ler, pois trata-se de uma vida cheia de lições literárias e humanísticas que todo pretenso intelectual tem que ter acesso. Dostoiévski faleceu em janeiro de 1880 depois de, no dia 26 ter se confessado e recebido a comunhão. Horas antes de sua passagem, pediu à mulher, Ana, para que lesse o Evangelho de São Mateus, capítulo 13, versículos 14-15, onde Jesus pede a João Batista que o batize. Morreu em paz, na sua casa e ao lado da mulher e dos filhos.

Procure: DOSTOIÉVSKI, Joseph Frank, Editora Edusp.

________________________________________________________________________ [1]FRANK, Joseph –   DOSTOIÉVSKI  – AS SEMENTES DA REVOLTA – VOL. I 1821 a 1849, Edusp, 2ª edição – 2008 pág.  105. [2] Idem, págs. 326/327. [3]FRANK, Joseph –   DOSTOIÉVSKI  – OS ANOS DE PROVAÇÃO – VOL. II 1850 a 1859, Edusp, 2ª edição – 2008 pág.  88. [4] Idem, pág. 89. [5] Idem, pág. 90. [6] Idem, pág. 92. [7] Idem, pág. 96.

mar 06

PLATÃO E O CRISTIANISMO

PLATÃO - 2019PLATÃO: O FILÓSOFO QUE ENCANTOU O CRISTIANISMO  

A filosofia, dizem com razão os sábios, é coisa dos gregos e nasceu, segundo alguns, do pensamento de homens que não tinham muito o que fazer e que viviam olhando para o céu e para a natureza, formulando perguntas sobre perguntas. Em alguns casos, encontravam respostas bastante razoáveis. Em outros, porém, as respostas eram tão polêmicas que atravessaram séculos e perduram até os dias de hoje. Não cabe aqui, nesse pequeno espaço, enumerar os filósofos mais famosos, haja vista que todos eles, em maior ou em menor grau, contribuíram de forma decisiva para a elucidação de muitas questões que perturbavam a alma dos seus contemporâneos. Aliás, por falar em alma, vamos aproveitar a deixa para contar um pouco sobre a compreensão de Platão sobre a alma. 

Para Platão existiam dois mundos: o das ideias e o da percepção e a ponte entre esses dois mundos é o artífice e as almas inteligentes. Para ele, a alma é a fonte do movimento e o universo todo contém uma alma moldada pelo artífice, que é a alma do mundo, a formar uma criatura viva e inteligente. Nesse aspecto, as estrelas e os planetas, por terem seus movimentos ordenados, possuem almas inteligentes. Humanos e mundo seriam portadores de almas. Os primeiros, com almas inteligentes. Segundo Platão, a matéria é organizada em quatro tipos básicos: terra, ar, fogo e água, que consistem em várias proporções de formas geométricas. Desse modo, tudo o que surge deles (tipos básicos) é perfeitamente proporcional ou racional, sendo todo o universo direcionado para o bem. 

Diferentemente de Pitágoras e do orfismo (religião surgida na Grécia por volta do séc. VI a.C.), que afirmavam que a alma está fadada à reencarnação, a menos que possa purificar-se e retornar ao mundo divino, Platão defende a preexistência da alma e sua sobrevivência à morte do corpo, com ênfase para a necessidade de escapar da reencarnação por meio de uma vida boa sobre a terra. Para ele, “felicidade perfeita é conhecer o padrão supremo sobre o qual o mundo é modelado”1. Ele considera a alma imortal, tendo como bem-aventurança o conhecimento do mundo das ideias, considerando como imperativo o nosso desvio do mundo sensível, literalmente falando, para uma mudança em nosso ser interior (metanoia), a fim de buscarmos o conhecimento da realidade suprassensível da qual este mundo depende”2. 

Aqui, vale a pena transcrever na íntegra o pensamento de Diogenes Allen e Eric. Springsted sobre a forma que Platão utiliza para descrever, valendo-se de lendas: 

 No Fedro, Platão narra na forma de mito a preexistência da alma. Ele usa a imagem da alma como uma carruagem puxada por dois cavalos, um branco e um preto. A alma possui três aspectos distintos: a inteligência, que guia a pessoa; desejos honrosos e apetites e desejos desonrosos. A carruagem representa a inteligência; o cavalo branco, os apetites honrosos; e o cavalo preto, os apetites desonrosos e desregrados. Os cavalos têm asas, que puxam a carruagem através do céu e para voar através de uma abertura na abóbada que circunscreve os céus, ou pelo menos, elevar-se alto o suficiente para dar uma olhada rápida através da abertura na abóbada, na realidade suprassensível que fica do lado de fora da abóbada dos céus. Mas visto que os dois cavalos têm desejos contrários, é difícil para o cocheiro conseguir subir alto o suficiente para ver de relance através da abertura na abóbada. Quando finalmente fica claro ser impossível fazê-lo voar alto o suficiente, a alma não consegue obter o sustento provido por um relance na verdadeira realidade que se encontra além da abóbada. Sem esse sustento, as penas das asas dos cavalos caem e eles não podem mais voar, de modo que a alma cai na terra – e encarna”3  

 Platão entende que, uma vez encarnada, a alma está pronta para retornar ao lar de origem, graças à memória das ideias que acumulou pelo costume de olhar de relance através da abertura da abóbada que, segundo ele, é uma memória latente. Em decorrência dessa memória latente, a alma vive de modo a desejar, ainda que de forma inconsciente, o retorno ao berço de origem, onde sabe que encontrará a felicidade interrompida com a queda na terra. 

  Voltaremos ao tema, na próxima edição. Não percam! 

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