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mar 06

PATROLOGIA: O FAROL DO CRISTIANISMO

farol de alexandria - 2

PATROLOGIA[1]: O FAROL DO CRISTIANISMO

Conta a história que uma das sete maravilhas do mundo, na antiguidade, era o farol de Alexandria, ou farol de Faros, justamente por ter sido construído – por ordem de Alexandre, o Grande – na Ilha de Faros, em Alexandria. O referido monumento, segundo nos informa o escritor Theodore Vrettos, foi construído em três seções distintas, sendo que, somente a base tinha mais de cem metros de extensão e era sustentada por blocos maciços de granito. Segundo o Autor, na terceira seção, a mais alta de todas, ficava a torre cilíndrica que levava à câmara do farol, “onde uma fogueira ardia dia e noite. Os marinheiros reconheciam o fogo e orientavam seu curso de acordo com ele, pois o farol era visível a centenas de milhas mar adentro” (VRETTOS, Theodore. Alexandria: A cidade do pensamento ocidental. São Paulo. Câmara Brasileira do Livro. Odysseus: 2005, p. 54).

Por que estamos falando sobre o farol de Alexandria numa página na qual pretendemos tratar da Patrologia? Justamente porque a Patrologia, para o cristianismo de todos os tempos tem a mesma importância do referido farol. Enquanto este último era destinado a orientar os navegantes do mar bravio, na direção segura do Grande Porto, a Patrologia é destinada a orientar os cristãos de todas as épocas, na direção segura do Evangelho.  Mirar o farol de Alexandria significava ter certeza de que a navegação estava na direção correta, ou, quando não, ao menos a tempo de ter corrigida a rota. Mirar a Patrologia é ter a certeza de que está-se no caminho de Jesus, percorrido pelos discípulos e seus sucessores. Eis a razão de o título desta página ser, orgulhosamente: Patrologia: O farol do cristianismo. Que todos os leitores desta página mirem este novo farol – que não é mais a sétima maravilha, mas, a única maravilha do nosso mundo – e que cheguem aos Pais da Igreja e, por intermédio deles, aos discípulos e, na mesma linha, a Jesus Cristo. Esse é o nosso objetivo, que pretendemos alcançar publicando todas as semanas matérias relacionadas ao período patrístico.

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POLICARPO DE ESMIRNA

Pretendemos iniciar nosso trabalho com aquele que teria bebido direto na fonte do discipulado de Jesus, como amigo e auxiliar do Apóstolo João: Policarpo, ordenado bispo de Esmirna pelas mãos do próprio apóstolo João, segundo Tertuliano, e tendo a ele endereçada a menção do Anjo que no Apocalipse manda que João “Escreva ao Anjo da Igreja de Esmirna. Assim diz o Primeiro e o Último, (...): Conheço tua tribulação e tua pobreza. Mas tu és rico. (...) Não tenhas medo do sofrimento que vai chagar. O diabo vai levar alguns de vós para a cadeia (...) Sê fiel até à morte. Eu te darei em prêmio a coroa da vida” (Ap 2, 8-10). A Carta aos Filipenses é o documento a ser consultado, para que dele se extraia toda a grandeza do caráter, da formação e da personalidade de Policarpo. Temos, ainda, o valioso testemunho de Ireneu de Lião, que teria sido seu discípulo:

“Podemos ainda lembrar Policarpo, que não somente foi discípulo dos apóstolos e viveu familiarmente com muitos dos que tinham visto o Senhor, mas que foi estabelecido bispo de Ásia, na Igreja de Esmirna, pelos próprios apóstolos. Nós o vimos na nossa infância porque teve vida longa e era  muito velho quando morreu com glorioso e esplêndido martírio. Ora, ele sempre ensinou o que tinha aprendido dos apóstolos, que também a Igreja transmite e que é a única verdadeira. E é disso que dão testemunho todas as igrejas da Ásia e os que até hoje sucederam a Policarpo, que foi testemunha da verdade bem mais segura e digna de confiança do que Valentim e Marcião e os outros Perversos doutores” (Adv. haer. 3, 2-4).

Ainda segundo Ireneu, Policarpo teria viajado até Roma, quando era bispo de lá Aniceto – o décimo sucessor de Pedro – por volta do ano 155, para discutir acerca da data da celebração da Páscoa que, enquanto os asiáticos celebravam no dia 14 do mês judaico de Nisan, os cristãos romanos celebravam-na sempre no domingo, dia da ressurreição. A questão, obviamente, não foi decidida naquele encontro. Para que se tenha uma ideia da polêmica, ainda no ano de 170, o Papa Vítor queria impor aos asiáticos a celebração conforme praticada pelos ocidentais.

Eusébio de Cesareia, na sua História Eclesiástica, conta que aconteceu em Esmirna uma fortíssima perseguição contra os cristãos e que nesse tempo Policarpo estava escondido fora da cidade. No entanto, um dos seus escravos, preso e torturado, decide indicar para as autoridades o esconderijo de Policarpo que é imediatamente preso e conduzido para Roma para, no circo, ser queimado vivo. O historiador relata, ainda que “Quando entrou na arena, os cristãos gritavam: ‘eis o doutor da Ásia, o pai dos cristãos, o destruidor de nossos deuses’”.

Eusébio de Cesareia, fazendo referência a uma carta “em nome da Igreja à qual ele presidia, dirigida às Igrejas do Ponto”, expõe para a história os fatos ocorridos durante o padecimento de Policarpo a partir de sua chegada ao estádio:

“No estádio, o tumulto era tão grande que mal se escutavam as palavras. Ao entrar Policarpo no estádio, veio uma vós do céu: ‘Sê forte, Policarpo, sê homem’. Ninguém viu quem falava, mas muitos dos nossos ouviram a voz.”[2]

Ora, enquanto o conduziam, houve grande tumulto da parte dos que ouviram dizer ter sido preso Policarpo. Ele adiantou-se e então o proconsul perguntou se ele era, de fato, Policarpo. Ao obter a resposta afirmativa, exortou-o a renegar (o nome de Cristo), dizendo: “Tem piedade de tua idade!’, e frases semelhantes, conforme se costuma dizer. Acrescentou: ‘Jura pela fortuna de César! Muda de opinião e dize: ‘Abaixo os ateus!’. Então, Policarpo, fitando severamente a multidão presente no estádio, estendeu a mão contra eles, suspirou, olhou para o céu e disse: “Abaixo os ateus!.”

Insistiu o proconsul, dizendo: ‘Jura e eu te liberto. Amaldiçoa a Cristo.’ Policarpo disse: ‘Há oitenta e seis anos que o sirvo e ele jamais me fez mal. como posso blasfemar a meu rei, meu salvador?’

O proconsul insistiu ainda e disse: ‘Jura pela fortuna de César!’ Policarpo replicou: ‘Se esperas em vão que hei de jurar pela fortuna de César, como dizes, e finges ignorar quem sou eu, escuta, falo com franqueza: Sou cristão. Se queres aprender a doutrina do cristianismo, dá-me o prazo de um dia e escuta.’

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[1] Patrologia é a ciência que trata a literatura cristã antiga em todos os seus aspectos e com todos os métodos apropriados. (Cf. DROBNER, Hubertus R. Manual de Patrologia. 2ª Ed. Petrópolis. Vozes: 2008, p. 14).

[2] CESAREIA, Eusébio de. História Eclesiástica. Patrística. Vol.  15. 2ª ed. São Paulo. Paulus: 2008. P. 192.

  [2] CESAREIA, Eusébio de. História Eclesiástica. Patrística. Vol.  15. 2ª ed. São Paulo. Paulus: 2008. P. 192.

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