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nov 15

PRIMEIRAS CLARISSAS NO BRASIL – 1ª PARTE

VIDA RELIGIOSA FEMININA E SITUAÇÃO DA MULHER NO BRASIL COLONIAL: AS PRIMEIRAS CLARISSAS

Por Frei Sandro Roberto da Costa, OFM

Introdução

Na presente exposição pretendemos fazer um breve estudo sobre a primeira fundação de religiosas clarissas do Brasil, situando-a no contexto mais amplo da história da mulher na sociedade colonial. Aproveitando o ensejo das celebrações dos 750 anos da morte de Santa Clara, queremos fazer memória das mulheres que, a exemplo de Clara, lutaram para fazer valer seus ideais na busca da vivência da santidade. Tais respostas não foram, já no tempo de Clara, dadas sem contradições. Também no Brasil colonial as mulheres, inseridas num contexto social e econômico específico, deram respostas a partir dos desafios que a realidade concreta lhes apresentava. E estas respostas também se mostraram contraditórias. Sabemos que na história não podemos julgar os atos e comportamentos do passado com o olhar contemporâneo. O contexto, a cultura, o modo de pensar e conceber o mundo e as relações humanas criaram mecanismos, sistemas e estruturas que, se hoje parecem inaceitáveis, há 3 ou 4 séculos atrás eram aceitos com naturalidade. O estudo da história da vida religiosa feminina no Brasil se constitui numa “chave de leitura” para a compreensão de alguns destes mecanismos e estruturas que norteavam a sociedade colonial. Estudar a instauração do primeiro convento canonicamente ereto no Brasil nos ajuda a entender a mentalidade do homem e mulher coloniais, profundamente religiosos, mas ao mesmo tempo profundamente inseridos no seu contexto sociocultural.

1. Situação da mulher religiosa no Brasil Colônia

Na sociedade colonial brasileira a mulher ocupava um lugar secundário, com o papel reduzido à vida familiar, de total submissão ao pai ou ao marido.1 O futuro das filhas era decidido pelo pai. Era ele que deveria “arranjar” o casamento, ou decidir se a filha deveria entrar para um convento. De um modo ou de outro, a mulher estava condenada à reclusão2. A mulher virtuosa era a mulher casada ou a religiosa. A solteira era mal vista. Aos 14-15 anos a moça já devia começar a esperar que o pai lhe apresentasse seu futuro esposo. Se até os 18-20 anos não conseguia despertar o interesse de ninguém, começava a se preocupar, pois corria o risco de ficar solteira.

2. Instalação tardia de conventos regulares no Brasil

Em meados do século XVII, quando vai ser permitida a instalação do primeiro convento de vida religiosa feminina no Brasil, a América espanhola já contava com cerca de 70 fundações.3 Tal demora não significa que não houvesse no Brasil mulheres interessadas em seguir esse estilo de vida. Pelo contrário, havia moças que se sentiam sinceramente inclinadas a uma vida de devoção e piedade, uma vida de “maior perfeição” como se entendia na época, buscando ingressar nos claustros de um mosteiro. Mas aquelas que quisessem fazê-lo deveriam ingressar num mosteiro em Portugal. Evidentemente poucas privilegiadas tinham condições de arcar com as despesas da viagem, além do dote exigido.
Por que não se fundaram conventos logo no início da colonização do Brasil, a exemplo do que aconteceu na América espanhola? Antes de tudo, a fundação, construção e manutenção de um convento exigia recursos econômicos consideráveis. A princípio o sistema de exploração instaurado pela metrópole na colônia não permitiu o surgimento de uma elite socioeconômica em condições de “bancar” a contração e manutenção de um convento. Os homens tiveram seus conventos financiados pelo sistema de Padroado desde o início da colonização. Com as mulheres a situação foi diferente, pois o Padroado não se interessava em investir em obras cujo retorno era praticamente nulo em termos políticos. Desta forma, os conventos femininos foram sustentados pelo setor privado, tanto na construção quanto na manutenção. Pode-se dizer que foi a “casa-grande” que sustentou os conventos de freiras. A partir de 1600 a economia açucareira começa a se desenvolver de forma mais acentuada, fortalecendo os grandes engenhos e possibilitando o surgimento de famílias abastadas, favorecendo também o desenvolvimento das cidades. A existência de um convento dava prestígio à localidade, além de ser um refúgio seguro para as filhas e esposas dos senhores mais ricos do lugar.
Outro fator que explica a tardia fundação de conventos no Brasil é a proibição da Coroa. As autoridades do Reino sempre foram reticentes em relação à fundação de conventos para mulheres, colocando na questão populacional um dos principais argumentos. A colônia precisava de mulheres brancas para serem mães e esposas de seus homens. A mestiçagem surgida do concubinato dos colonos com as negras e índias preocupava a Coroa. Era necessário manter a hegemonia branca e lusitana. Mulheres brancas da elite, órfãs pobres e até prostitutas deveriam garantir esse papel.4 Numa carta de 1603, recusando o pedido de fundação de um convento, o rei se expressava nos seguintes termos: “...não é conveniente erigir conventos de freiras nessas regiões, uma vez que as terras a ser povoadas são tão vastas que são necessários mais habitantes do que os que aí vivem no momento”.5
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1. Nossa afirmação se refere, grosso modo, aos dois primeiros séculos do Brasil Colônia. Do mesmo modo, um estudo mais aprofundado deveria levar em consideração as diferenças de comportamento da mulher, dependendo da classe social à qual pertencia. O historiador Pedro Calmon comenta: “A reclusão feminina - que tanto impressionou os viajantes estrangeiros - foi extrema nas cidades, e entre os emboabas. As famílias nativas sempre se mostraram mais acessíveis, joviais, curiosas; as portuguesas, desconfiadas, isoladas, tristes”. CALMON, P., História social do Brasil, vol. I: Espírito da sociedade colonial, Martins Fontes, São Paulo 2002 (Ia. edição: 1935), 27. A medida que avançam os séculos, com o advento do iluminismo, a situação da mulher, também no Brasil, tende a se modificar. A historiadora Sheila de Castro Faria, no Dicionário do Brasil Colonial, afirma: “...foi basicamente a partir das imagens construídas pelos viajantes e cronistas que se forjaram as figuras da mulher branca reclusa, tolhida e dominada, e a da mulher escrava, negra ou mestiça, como extremamente sensual. A partir da década de 1980, a historiografia passou a rever esses estereótipos. Questionou, principalmente, a tão alegada submissão feminina, mostrando que uma coisa era o modelo ideal de conduta feminina veiculado pelos moralistas e outra bem diferente eram as condutas das mulheres, não raro desafiadoras, em vários aspectos”. A autora afirma ainda que já nos primórdios da colonização encontram-se mulheres à frente dos engenhos, vendas e tabernas. Continua a autora: “A historiadora Leila Algranti afirma que romper com os estereótipos de reclusão e submissão das mulheres foi uma contribuição definitiva da historiografia, mas alerta para o risco de se excluírem da história as mulheres menos ousadas que viveram reclusas ou se submeteram à dominação masculina, possivelmente a grande maioria, segundo a autora”. FARIA, S. C., Mulheres, in Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808), R. Vainfas (direção), Objetiva, Rio de Janeiro 2000, 414-416.
2. O historiador Henrique Cristiano Matos afirma que a vida da mulher na colônia pode ser resumida nos chamados 7 “c”s: casamento, criança, cama, casa, cozinha, capela e confessionário. Cf. MATOS, H. C. J., Nossa História, Tomo I, Paulinas, São Paulo 2001, 243. Podemos acrescentar um possível oitavo “c”: convento. 3. Neste número estão incluídas todas as ordens e congregações religiosas femininas presentes na américa espanhola. O primeiro convento de clarissas foi fundado em 1551, na cidade de Santo Domingo. A partir daí, até 1782, vão ser fundados em toda a colônia espanhola 34 conventos de religiosas clarissas. Em 1601, o convento de Santa Clara na Cidade do México tinha 170 religio¬sas. Cfr. BORGES, P., Religiosos en Hispanoamérica, Editorial Mapfre, Madrid 1992,267-325. 4. Desde a chegada dos jesuítas (1549), horrorizados com o concubinato dos portugueses com a índias e escravas, foram trazidas de Portugal, por sugestão dos religiosos, mulheres brancas para se casarem com os colonizadores. A propósito desse terna, veja-se o filme “Desmundo”, de Alain Fresnot: Brasil, 2002. 5. Citado em DEL PRIORE, M. (org.), História das Mulheres no Brasil, Contexto, São Paulo 1997,484. A crescente ida de mulheres da colônia para ingressarem nos conventos da metrópole vai dar origem a um alvará régio, de D. João V, datado de 14 de março de 1732, proibindo a saída de mulheres da colônia.

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