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Sementes da Palavra, É tempo de semear

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fev 03

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

4º DOMINGO DO TEMPO COMUM – PERMANECE A CARIDADE –

"Percebendo que era rejeitado por seus conterrâneos, Jesus diz: “Nenhum profeta é bem recebido em sua pátria”. E como justificativa cita os exemplos dos profetas Elias e seu discípulo Eliseu" –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm

ORAÇÃO: “Concedei-nos, Senhor Deus, adorar-vos de todo o coração, e amar todas as pessoas com verdadeira caridade”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Jr 1,4-5.17-19

Eu te consagrei e te fiz profeta das nações.

O texto que ouvimos faz parte da narrativa da vocação do profeta Jeremias (cf. Jr 1,4-19). É um texto autobiográfico, no qual o próprio Jeremias conta, em 1ª pessoa, sua vocação para ser profeta. Ser profeta não é decisão de uma pessoa, mas um chamado especial que Deus lhe faz. Estava no plano de Deus chamar Jeremias para ser profeta: “Antes de formar-te no ventre materno, eu te conheci; antes que nascesses eu te consagrei”. O chamado divino não é uma imposição que tira a liberdade da pessoa, mas um convite de Deus para uma missão especial: ser “profeta das nações”. A liberdade de acolher ou rejeitar o convite fica evidente pela forma de diálogo da narrativa de vocação: é o Eu divino que se dirige ao tu humano. Jeremias, num primeiro momento, quer “tirar o corpo fora”, porque imagina a oposição que deverá enfrentar por parte do palácio (reis e príncipes), da classe sacerdotal e do “povo da terra”, que detinham, respectivamente, o poder político, religioso e econômico. As palavras que Jeremias deverá falar não serão dele mesmo: “comunica-lhes tudo o que eu te mandar dizer”. Serão palavras de denúncia, apelos de conversão e ameaças de castigo que Deus colocará em sua boca (v. 9). Deus, porém, convida o profeta a não se intimidar, diante da oposição e das ameaças. Vai transformá-lo numa cidade fortificada. Promete estar sempre ao lado de seu profeta para defendê-lo.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 70

Minha boca anunciará todos os dias,

vossas graças incontáveis, ó Senhor.

2. SEGUNDA LEITURA: 1Cor 12,31–13,13

Permanecem a fé, a esperança e a caridade.

Mas a maior delas é a caridade.

Nos últimos dois domingos ouvimos Paulo falar dos diversos dons ou carismas, existentes na comunidade de Corinto. Explicava que os dons procedem do mesmo Espírito, mais do que um diadema que embeleza uma pessoa são um avental para melhor “lavar os pés”, servindo a comunidade. Assim, judeus e gregos, escravos e livres, unidos pelo mesmo pelo Espírito Santo, formam um só corpo de Cristo. Na leitura de hoje, Paulo esclarece que existe uma hierarquia entre os diversos dons e serviços. Certamente, havia concorrência entre os cristãos a respeito dos dons. Havia quem considerasse seu carisma o mais importante. Paulo explica que nenhum carisma/dom vale alguma coisa sem a caridade, sem o amor. Todos têm seu valor, enquanto acompanhados pelo amor. No presente, os dons mais importantes são a fé, a esperança e a caridade. No futuro existirá apenas a Caridade, o Amor (o Espírito Santo) que nos une como comunidade a Jesus Cristo e a Deus.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO: Lc 4,18

Foi o Senhor que me mandou boas notícias anunciar;

Ao pobre, a quem está no cativeiro, libertação eu vou proclamar!

3. EVANGELHO: Lc 4,21-30

Jesus, assim como Elias e Eliseu, não é enviado só aos judeus.

Simeão, ao tomar o menino Jesus em seus braços, louvou a Deus e falou, em tom profético, para Maria: “Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição” (Lc 2,35). Diante da pessoa de Jesus e de sua mensagem não podemos permanecer indiferentes. Ou se é contra, ou a favor. Ficou claro isso na visita de Jesus a Nazaré (3º Domingo) e hoje se repete na fala de Jesus aos conterrâneos. Acolhido por uns, rejeitado por outros, Jesus prossegue corajosamente seu “caminho” (4,30), que o levará à morte na cruz. No início de sua atividade na Galileia é elogiado por todos pela qualidade de seu ensino (4,15): “Eles ficavam admirados de sua doutrina porque sua palavra tinha autoridade” (4,15.32). Mas aos poucos – como o mostra Lucas em seu evangelho – o ensino cheio de sabedoria, as críticas aos sacerdotes, escribas e fariseus, os gestos de misericórdia para com pobres e pecadores, provocam oposição ferrenha contra Jesus, por parte dos adversários. Assim acontecia também nos anos 70, quando Lucas escreve seus dois livros: Evangelho e Atos dos Apóstolos. Percebendo que era rejeitado por seus conterrâneos, Jesus diz: “Nenhum profeta é bem recebido em sua pátria”. E como justificativa cita os exemplos dos profetas Elias e seu discípulo Eliseu. Ambos, rejeitados pelo próprio povo e perseguidos em sua terra, são enviados a estrangeiros. Por ocasião de uma grande seca e carestia, Elias foi enviado a Sarepta, na Sidônia, para socorrer uma viúva e seu filho órfão. Eliseu, apesar de haver muitos leprosos em Israel, cura a Naamã, que era da Síria. Ao citar estes dois exemplos, Lucas, por um lado lembra o programa de Jesus anunciado na sinagoga de Nazaré (2º Domingo), por outro lado sinaliza o anúncio da boa-nova aos pagãos, que acontecia em seu tempo. Ao ouvirem as palavras de Jesus, “todos na sinagoga ficaram furiosos” e o expulsaram da cidade ameaçando-o de morte. Jesus, porém, passou no meio deles e “continuou o seu caminho”. Qual é a minha reação diante da boa-nova que Jesus hoje anuncia? Adesão? Rejeição? Ou simples indiferença? Por quê? Há tantos anos me com sidero cristão católico: O que mudou em minha vida? Ao celebrarmos agora a Eucaristia, vamos pedir que Jesus abra nossos ouvidos e nossos olhos para prosseguirmos no seu “caminho” de amor, servindo a todas as pessoas que sofrem.

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

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