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Sementes da Palavra, É tempo de semear

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out 11

REFLEXÕES DE UM SEXAGENÁRIO

FIM DA ESTRADA

ENFIM, A TERCEIRA IDADE –

*por Luiz Antonio de Moura –

Alguém, talvez sem nada melhor para fazer na vida, decidiu cunhar o termo “terceira idade”, tendo por objeto as pessoas que chegam à casa dos sessenta anos de idade. Deste modo, ao soar o sinal da meia-noite, chega-se ao dia do início da terceira, e última, fase da vida. A coisa tem cara de melancólica, mas, na verdade, depende do ângulo pela qual é observada.

N’outro dia mesmo eu tinha vinte anos de idade e olhava para frente como quem observa uma estrada a ser percorrida. Nunca, realmente, me preocupei muito em saber o que poderia haver depois da próxima curva. Imaginava que, como tudo indicava, depois da curva, a estrada continuava o seu rumo natural. Com esta crença que, na juventude, toma ares de convicção, não via porque dar ouvidos aos mais experientes, quando alertavam para as armadilhas e para os perigos camuflados depois de cada uma das próximas curvas. É engraçado! A gente acredita mesmo que sabe de tudo e que os outros estão fora da época. Mas não, eles têm sempre razão. Maldita razão! Logo após a primeira curva, lá está escondida alguma armadilhazinha, pronta para nos pregar as primeiras peças.

Assim, de peça em peça; de armadilha em armadilha, a gente vai aprendendo que nada na vida é constante, apesar do nosso querer. Esta lógica torna-se tão contumaz na nossa caminhada, que tem gente que passa a sentir falta da próxima curva, porque não consegue viver de forma constante. Necessita da vida sob alerta, sob o risco e sob o perigo. Gente que, depois de algum tempo, a gente identifica como doente de verdade. Sim, porque, apesar de tudo o que a vida nos propõe, imagino ser normal esperar, e até desejar, que depois da próxima curva, sempre exista uma continuidade de tudo o que é bom e, é claro, o fim de tudo o que é ruim, incomoda e traz sofrimentos.

Bem, deixando de lado os doentes e amantes da dor e do sofrimento, o certo é que n’outro dia mesmo, eu tinha meros vinte anos de idade e olhava para frente imaginando, com o tempo, alcançar a velocidade de cruzeiro, a partir de quando, seriam retas, descidas e curvas suaves e mais retas a serem percorridas, até, então, chegar na fase da tal “terceira idade”, com força, experiência, certeza e ares de sabedoria para, enfim, destruir todo aquele cenário pintado por quem já havia concluído aquele percurso e que, sem maiores cuidados, alertava para os buracos e fossos após cada uma das curvas seguintes.

Dos vinte aos trinta anos, a velocidade é boa. A gente sente que o carro está sob controle e imagina poder acelerar um pouco mais, sem medo das tais curvas. Aliás, as curvas costumam ser emocionantes e a gente, é claro, não sente medo delas. Vai que vai! A estrada alterna trechos muito bons com outros meio esburacados, mas, olhando para fora do veículo do tempo, percebe-se que alguém está fazendo os reparos necessários e, então, imagina-se que, aconteça o que acontecer, haja o que houver durante o percurso, sempre haverá alguém fazendo aqueles reparos. Temos segurança e já pensamos em esboçar pequeno sorriso, como quem diz: “não disse que conheço o caminho?”.

Dos quarenta aos cinquenta, um bom trecho já foi percorrido e, conforme previsto, já vimos muita coisa estranha na estrada percorrida. Depois de algumas curvas, pudemos perceber que o carro já não apresenta a mesma estabilidade; já descobrimos que, vez por outra, fomos realmente surpreendidos por situações desagradáveis depois de certas curvas; pudemos experimentar alguns trechos esburacados e cheios de crateras, nos quais nenhum reparo foi ou está sendo feito. Aquele meio sorriso convencido começa a sair dos nossos lábios e passamos a afirmar que, sob certos aspectos, alguns dos alertas recebidos lá atrás, no início da jornada, tinham alguma veracidade e começamos a nos tornar mais espertos, com os olhos mais atentos na estrada. Até porque, nesta fase da vida, muitos de nós já está usando os indesejáveis óculos. “É só para perto”, a gente afirma. Mas, na verdade, muitas coisas, para serem realizadas, dependem dos benditos óculos!.

Dos cinquenta aos sessenta longo trecho já foi percorrido e algumas experiências foram adquiridas. Umas, bem amargas; outras, menos um pouco, mas, no cômputo geral, é possível verificar as marcas deixadas por umas e por outras. Agora já temos consciência de que, depois de cada curva, sempre existe a possibilidade de surgirem pedras pontiagudas, abismos, armadilhas naturais e outras preparadas gentilmente pelos adversários. Já sabemos “por experiência”, que a estrada é perigosa e traiçoeira; que não podemos confiar em ninguém e, então, passamos a pronunciar o nome de Deus com maior frequência: Deus me livre; se Deus quiser; graças a Deus; tenho fé em Deus, e por aí vai. Já aqui estamos plenamente convencidos do quão enganados estávamos lá atrás, quando dos queridos e saudosos vinte anos!

A partir dos sessenta anos, nossa velocidade tende a ser bastante reduzida. Não, por deterioração ou cansaço da máquina, mas, por precaução. Já estamos cansados dos solavancos que antecedem a frenagem antes de cada curva que, agora, sabemos esconderem perigos. Já estamos prevenidos, por experiência própria, dos enormes riscos da entrada em alta velocidade nas curvas e da (in)consequente aceleração após cada uma delas, acreditando, ou mantendo a ilusão de que, após cada curva, as retas são decorrência natural do grande tracejado percurso.

Nesta fase, normalmente, ao olharmos para frente e para trás, sabemos avaliar com bastante probabilidade de acerto, muito do que ainda pode acontecer, caso insistamos em permanecer com a máquina acionada naqueles níveis de outrora. É preciso ir freando lentamente muito antes de cada curva. É preciso sair de cada curva com velocidade próxima do “zero” para, lenta e sabiamente, ir acelerando muito de acordo com as condições apresentadas diante de nós.

Na marca dos sessenta anos, passamos a compreender que o perigo não está escondido depois de cada curva, mas, incrivelmente, nas grandes retas, nas quais levamos o veículo a velocidades verdadeiramente impraticáveis, posto que, em alta velocidade, a brusca frenagem antes de curvas que vão surgindo do nada, causa impactos bastante negativos no corpo e na alma. Então, e somente então, começamos a compreender que, o ideal é percorrer as grandes retas com velocidade média, aumentando esporádica e cautelosamente, entrando nas curvas com boa estabilidade e saindo delas com segurança redobrada. Ah, aprendi os segredos! No entanto, alguém sussurra nos fones que trazemos colados aos ouvidos: “falta pouco para a chegada. Você já percorreu mais da metade do caminho útil. Prepare-se para entrar na reta final”. Agora, como consolo, só resta aos mais sábios e mais conscientes, tirar o pé do acelerador, colocá-lo no freio para, lenta e progressivamente, ir parando o carro porque, logo ali na frente está faixa de chegada!

Finalmente, tomamos consciência de que ainda podemos ser muito úteis, caminhando, agora, como instrutores de pista, alertando os novatos para os grandes perigos da estrada. Eles, porém, assim como nós outrora, não acreditam no que dizemos. Ligam seus veículos e, como loucos, saem em altíssimas velocidades! Lá se vão eles passar por tudo o que passamos, repetir os mesmos erros, ou outros ainda maiores para, no final, aos sessenta, entrarem na fase final da caminhada, na tal da “terceira idade” e, fatalmente, pretenderem ser o que agora queremos ser: instrutores de pista.

Hoje – 11 de outubro de 2019 – chego na marca dos sessenta anos! Entro nesta que chamam de “terceira idade”. Enfim, a terceira idade! Olho para frente e percebo com muita facilidade os riscos, para a saúde e para a vida, de continuar numa velocidade, ainda, ditada por quem está confortavelmente à margem da pista. Para quem não está, de fato e concretamente, na chuva, o guarda-chuva sempre será  uma peça feia, incômoda e inútil.

Chego aos sessenta anos de idade com conhecimento suficiente para saber que, daqui por diante, a estrada começa a ficar cada dia em condições mais desafiadoras, mais perigosas e mais propensas a transformar meu veículo em peça de museu deixando-me, em qualquer próxima curva, à pé. O melhor e mais sábio, para mim, é entrar na próxima à direita, trocar os pneus por uns mais macios e suaves, próprios para a grama, e ir curtir os belos e magníficos jardins que permeiam toda a grande pista da vida, deixando para os mais afoitos, os ainda despreparados e para os novatos, a possibilidade de engalfinharem-se na incrível “corrida maluca” da vida, na qual, além de competirem insaciavelmente uns com os outros, contarão sempre com a presença de certos fantasmas que, apesar do tempo, insistem em permanecer na pista, criando tumultos e fazendo papel de bobos, porque desrespeitam e desconsideram o poder e a força implacável do tempo, sob os mais diversos pretextos.

Posso até vir a ser instrutor de pista, porém, sabendo, de antemão, que, os que estão para iniciar o percurso, só vão, verdadeiramente, compreendê-lo quando puderem, assim como faço hoje, olhar para trás e dizerem o que digo: Enfim, a terceira idade!

Não sou merecedor de grandes congratulações, afinal, segui as regras. Joguei o jogo. Agora, estou arrumando as malas para entrar na verdadeira fase boa da vida. Aquela reservada aos verdadeiramente sábios. A fase a partir da qual, farei longas caminhadas. Não, naquela estrada estonteante, mas, na estrada que conduz aos vestiários, onde trocarei toda indumentária por roupas mais adequadas ao descanso, ao repouso, à leitura, às orações, à meditação e, enfim, aos passos na grande reta, ao fim da qual, espero, receberei de Deus o grande troféu da vida.

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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