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Sementes da Palavra, É tempo de semear

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nov 27

ROSAS PARA MARIA – PARTE I

ROSAS PARA MARIA

ROSAS PARA MARIA!

*Por Viviane Gonçalves Noel –

*Este livro foi criado por Viviane Gonçalves Noel e os fatos históricos sobre as aparições de Nossa Senhora das Graças foram pesquisados no “Devocionário a Nossa Senhora das Graças”, EDITORA CANÇÃO NOVA, São Paulo, SP, Brasil, 2010. 

Era uma vez três Marias muito diferentes, mas com um grande objetivo em comum: encontrar uma quarta Maria, aquela que mudaria suas vidas para sempre!

A arte do encontro é sempre modificadora, ainda que pareça casual. Um ser não pode, verdadeiramente, encontrar outro ser e permanecer o mesmo.

As relações são como uma teia, elas vão sendo tecidas com arte, como numa armação de fios de seda que, de tão finos e delicados, parecem não prender. Porém, é nessa delicadeza que a força dos laços se forma.

Quando percebemos, já fazemos parte da rede de relações. Somos transformados. Somos, também, agentes transformadores. Somos todos um no somatório da diversidade!

Conhecendo Maria-Sem-Vergonha:

 Maria-Sem-Vergonha é uma linda menina. Tem apenas oito anos de idade e uma curiosidade infinita! Irmã de dois meninos mais velhos, ela nem parece ser a caçula, tamanhas são as suas travessuras e a sua experiência de vida, se é que assim podemos chamar.

Ela já teve cabelos curtos, médios e longos. Mas não pensem que o corte era uniforme, pois ela mesma fazia questão de cortar os próprios cabelos ou de pedir a um dos irmãos que o fizesse. O resultado era sempre algo muito esquisito, porém bastante original!

Na escola, é a menos inibida, conversa sobre tudo e com todos. Tudo o que a professora pergunta, ainda que ela não saiba o que dizer, levanta o dedinho e logo dá um jeito de responder:

– Muito bem! Agora que todos já ouviram a explicação, eu tenho uma pergunta a fazer – disse a professora.

– Oba! Qual a pergunta, professora? – a turma respondeu em coro.

– De onde vem o brilho da lua?

Mais do que depressa, Maria-Sem-Vergonha levantou o dedo!

– Eu sei, professora! Eu sei!

– Pois diga, Maria-Sem-Vergonha, de onde vem o brilho da lua?

– Dos namorados, professora!

– Como assim: dos namorados? De onde você tirou isso, Maria-Sem-Vergonha?

– Ah, professora! A senhora nunca reparou que os apaixonados vivem olhando para o céu, fazendo músicas e poesias para a lua? Ninguém enxerga o brilho da lua como eles enxergam. São eles que dão brilho a ela!

– É verdade, Maria-Sem-Vergonha, os namorados são os mais encantados com a lua, mas isso não significa que eles têm o poder de iluminá-la, é justamente o contrário: a lua os ilumina, com a luz que vem do sol!

– Está bem professora, esse brilho todo pode até ser culpa do sol, mas eu acho muito mais legal dizer que é culpa dos namorados! Ah, que doce culpa!

A turma inteira caiu no riso. Nem mesmo a professora pôde resistir ao romantismo da pequena criança. Do que ela será capaz aos quinze anos? Talvez traga as estrelas do céu para o chão firme!

Em casa, Maria-Sem-Vergonha não é diferente. Adora receber a visita de amigos e familiares. Gosta de conversar sobre todos os assuntos e, mesmo correndo com a garotada de um lado para o outro, está sempre ligada no que os adultos estão conversando.

Certa vez, Maria-Sem-Vergonha ouviu sua tia e sua mãe numa conversa sobre saúde, tema que muito lhe interessa. Aliás, qual tema não lhe interessa? Ela sempre tem um palpite sobre tudo! Sua tia reclamava de um resfriado e do quanto estava congestionada, cheia de secreções saindo pelas narinas.

– Tia Vera, o que são secreções?

– Maria-Sem-Vergonha, não se aproxime tanto! Do contrário, você será a próxima a sofrer com essas secreções saindo por suas narinas.

– Titia, a senhora pode me dizer a verdade, eu já sou grande, eu entendo das coisas. Secreções são melecas, não são?

– Maria-Sem-Vergonha, tenha modos! – esbravejou sua mãe.

– Não se preocupe, tia Vera. Eu vou ajudá-la a ficar boa rapidinho!

Maria-Sem-Vergonha correu até o banheiro e voltou segundos depois com um enorme pedaço de papel higiênico enrolado em uma de suas mãos.

– Prontinho, tia Vera! É só a senhora assoar aqui e botar toda essa meleca para fora! Mamãe sempre me diz para não puxar a meleca para dentro, mas para botá-la para fora do corpo! Só assim, a senhora vai melhorar!

Tia Vera, por mais sem graça que estivesse, não pôde resistir ao carinho e à espontaneidade de uma criança tão zelosa. Pôs seu nariz na mão pequena, porém gorda de tanto papel higiênico enrolado, e colocou suas secreções para fora, ordenando que Maria-Sem-Vergonha fosse já lavar as mãos.

Com essa disposição, curiosidade e alegria, Maria-Sem-Vergonha vive os seus dias aprontando e encantando. A vergonha não faz parte de suas características, ela diz o que pensa e faz questão de marcar presença por onde passa.

Aprecia, enormemente, marcar presença também nos palcos da escola. Adora uma peça teatral, mas não tem a vaidade de querer ser a protagonista. Até porque, ainda que seja apenas uma árvore no cenário, Maria-Sem-Vergonha dá um jeito de ser a árvore mais graciosa, frutífera e com uma enorme sombra! Uma sombra convidativa, daquelas que temos vontade de deitar embaixo, enquanto lemos um livro.

Era primavera, a escola inteira estava vibrante com a peça que apresentaria naquela tarde! Os pais estariam presentes. Toda a comunidade foi convidada. Maria-Sem-Vergonha não cabia em si de tanta alegria! A peça era sobre um lindo jardim que voltava a florir, depois de um inverno rigoroso. Já era primavera, a estação mais bonita e perfumada!

A tarde chegou! No palco, todas as turmas participando. Maria-Sem-Vergonha dividia o palco com uma infinidade de crianças, inclusive com seus irmãos. O palco estava mesmo florido! Entre rosas, margaridas, cigarras, formigas e diversas árvores, lá estava Maria-Sem-Vergonha representando uma linda jabuticabeira! Suas pernas e pés estavam firmes no chão, como um tronco bem enraizado. Porém, seus braços se mexiam o tempo todo, como se a linda árvore estivesse recebendo uma rajada de vento. O que parecia estranho é que somente a jabuticabeira se mexia daquele jeito! A laranjeira, a macieira, a mangueira e todas as outras árvores estavam calmas, como num dia de céu ensolarado.

A professora havia colado várias bolinhas de gude negras nos galhos da jabuticabeira, representando as saborosas jabuticabas. Os galhos eram os braços de Maria-Sem-Vergonha, envoltos em papel crepom marrom. Estava tudo uma lindeza!

A peça foi transcorrendo de uma maneira delicada, bela e encantadora! Os pais se enchiam de orgulho ao admirarem seus filhos! Mas, como em toda peça infantil que se preze, os imprevistos começaram a aparecer.

Maria-Sem-Vergonha mexia seus braços com tanta graciosidade e energia, que as jabuticabas começaram a cair de seus galhos. A professora tentou improvisar, fazendo sinal para que algumas crianças fingissem estar comendo as jabuticabas que se desprendiam dos galhos.

Mas, quanto mais as crianças colhiam as jabuticabas pelo chão, mais Maria-Sem-Vergonha se empolgava e balançava. Eram muitas jabuticabas rolando pelo chão! As crianças começaram a escorregar, pisando nas bolinhas de gude. A peça virou um alvoroço!

Em poucos segundos, as árvores e as flores estavam todas de pernas para o ar! A plateia ria descontroladamente! Os irmãos de Maria-Sem-Vergonha, já no chão, balançavam a cabeça com ar de reprovação e de quem já sabia que algo assim poderia acontecer.

A cortina foi fechada. Logo, os professores todos subiram ao palco com vassouras, tentando juntar as bolinhas de gude. Ajudaram também os alunos a se levantarem. Em pouco tempo, todos já estavam posicionados novamente, porém assustados e amassados. Não havia muito mais coisa a se fazer. A cortina foi aberta mais uma vez, apenas para que o lindo e tempestuoso jardim pudesse agradecer a presença de todos.

A plateia aplaudiu de pé! Foi realmente uma tarde divertida! Maria-Sem-Vergonha encarou tudo como uma grande oportunidade de mostrar todo o seu talento. Essa menina, realmente, tem uma autoestima rara!

O tempo passava, e Maria-Sem-Vergonha crescia em tamanho, alegria e em novas estripulias.

Numa ensolarada manhã, o telefone da casa tocou. Maria-Sem-Vergonha se apressou em atendê-lo:

– Alô! Aqui é da casa dos Ferreira. Com quem deseja falar?

– Olá, bom dia! Eu me chamo Alfredo e gostaria de falar com a senhora a respeito do nosso novo produto no mercado!

Maria-Sem-Vergonha se empolgou, afinal, não é todo dia que ela recebia uma ligação de alguém que a tratava como senhora, querendo lhe oferecer um produto!

– Bom dia, senhor Alfredo! O seu produto é um novo biscoito no mercado? Adoro os recheados!

– Não, senhora. Meu produto é para ajudá-la nos afazeres domésticos. Trata-se de um novo aspirador de pó, muito mais potente! Ele é capaz de engolir uma caixa grande, caso ela esteja no lugar errado, comportando-se como uma sujeira a ser engolida!

– Mas que produto interessante, senhor Alfredo! Ele engole também material escolar? Ele engole uma mochila inteira?

– A senhora é muito espirituosa! Qual é mesmo a sua graça?

– Ah, eu acho graça em muitas coisas, como quando alguém escorrega, sai tropeçando e cai lá na frente! Claro que vou correndo ajudar, mas não consigo deixar de dar uma boa gargalhada!

– Mas a senhora é realmente divertida! Quando perguntei qual a sua graça, eu quis saber o seu nome!

– Ah, por que não perguntou logo? Até eu já sei o seu nome! Eu sou a Maria-Sem-Vergonha.

– Dona Maria-Sem-Vergonha, acho que o meu novo produto vai ajudá-la muito!

– Senhor Alfredo, eu também acho que esse aspirador vai ser a solução para os meus problemas, principalmente na escola.

– Na escola, dona Maria-Sem-Vergonha? A senhora trabalha na limpeza de uma escola?

– Não, eu não limpo a escola, mas é de lá que vêm todas as minhas tarefas. E se o seu aspirador puder engolir alguns livros, cadernos e até mesmo a minha mochila, vai ser de grande utilidade!

De repente, a conversa foi interrompida pelo pai de Maria-Sem-Vergonha:

– Maria-Sem-Vergonha, com quem você está falando?

– Só um minuto, papai. Eu estou comprando um produto novo no mercado.

– Ah, está mesmo? E com que dinheiro a senhorita pretende pagar?

– Essa parte é com o senhor, papai. Fale aqui com o simpático senhor Alfredo!

O pai de Maria-Sem-Vergonha pega o telefone:

– Bom dia, senhor Alfredo! Não dê tanta bola assim para uma criança de oito anos! No que posso ajudá-lo?

– Criança? Maria-Sem-Vergonha é uma criança?

– Sim, senhor. É minha filha.

– Eu estou impressionado com a desenvoltura dela!

– Ela é mesmo muito carismática! Mas no que posso ajudá-lo?

– Eu estava apresentando para a sua filha o nosso novo produto, uma nova versão do aspirador de pó, muito mais potente, capaz de aspirar objetos grandes e, assim, manter o local limpo e organizado.

– Parece tentador, senhor Alfredo, mas não tenho interesse no momento.

Maria-Sem-Vergonha, inconformada, gritou:

– Mas eu tenho, papai! Peça ao senhor Alfredo para me mandar um aspirador, do tamanho maior e na cor rosa!

O pai de Maria-Sem-Vergonha apenas acenou com a mão, na tentativa de calar a filha, enquanto agradecia e se despedia do senhor Alfredo.

 CONTINUA EM 04 DE DEZEMBRO DE 2019

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 *Viviane Gonçalves Noel é formada em Pedagogia pela Universidade Católica de Petrópolis e pós-graduada em Espiritualidade, Ecologia e Educação - uma abordagem transdisciplinar, pelo Instituto Teológico Franciscano. Trabalha com a criação de poesias e crônicas personalizadas para as mais diversas ocasiões. É autora dos livros "Francisco de Assis e a Profunda Poesia de Ser Parte da Natureza", "O Travesseiro Mágico" e "Ouse Escutar a Voz do Seu Coração - um livro para refletir e colorir". Atua como dramaturga na Satura Companhia de Teatro e é terapeuta em Cura Prânica, credenciada pelo Instituto Inner Sciences.

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