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jul 03

“SALVE CHEIA DE GRAÇA; O SENHOR É CONTIGO”

MARIA E O ANJO

MARIA, VERDADEIRAMENTE CHEIA DE GRAÇA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Algumas pessoas, talvez até conduzidas e induzidas por maus orientadores, costumam afirmar que Maria, mãe de Jesus, deve ser tratada como uma mulher absolutamente comum, igual a todos os demais seres humanos. Afirmam que ela apenas cumpriu uma vontade de Deus e que, nada de mais fenomenal teria acontecido na vida daquela pequena, simples e pobre menina do interior da Galileia.

Esta questão, na verdade, é um divisor de águas entre muitos cristãos que, em razão das diversas denominações reinantes, insistem em olhar para Maria de Nazaré como uma simples mulher, pecadora como qualquer outro ser humano, sem perceber nada de especial. Como se Deus fosse capaz de conceder uma graça tão especial – dar à luz o seu Filho Unigênito – a uma mulher qualquer, como se Ele agisse feito um Ditador que, olhando para os seus súditos, escolhe à esmo aquele ou aquela a quem encaminhar para o sacrifício.

A leitura da Bíblia não parece dar razão a tais pessoas. Em primeiro lugar, a salvação dos homens é projeto eterno e, desde a expulsão de Adão e Eva do paraíso terrestre, Deus tratou de deixar bem claro para a serpente que haveria inimizade entre a posteridade dela e a da mulher que, por fim “te pisará a cabeça e tu armarás traições ao seu calcanhar” (Gn 3, 15).

A posteridade da serpente é a que bem conhecemos, ou seja, é a do pecado, da morte e da perdição. A posteridade da mulher, ao contrário, é a da santificação e a da salvação para a vida eterna, atributos que só chegam ao mundo e aos seres humanos por meio do Verbo encarnado, a respeito do qual falaram os profetas ao longo de todo o Antigo Testamento, com maior ênfase para Isaías que, melhor do que ninguém, soube retratar a figura do Ungido de Deus.

Entretanto, ninguém pode, jamais, conceber a ideia de que o Filho de Deus teria encarnado no ventre de uma mulher pecadora, como qualquer outra do seu tempo. Aquela da qual nasceria a posteridade adversária da serpente teria que, necessariamente, ser e estar isenta de todo pecado; seu ventre, tal qual templo sagrado e purificado, teria de estar assim preparado para receber, aconchegar e gestar o Verbo de Deus, para a aquisição da perfeita natureza humana que, como sabemos, deriva de Maria.

Não é em vão ou sem propósito que o Anjo Gabriel, ao se aproximar de Maria, saúda-a efusivamente: “Deus te salve cheia de graça; o Senhor é contigo” (Lc 1, 28). Ora, o anjo enviado por Deus tinha pleno conhecimento de estar diante de uma pessoa absolutamente especial, porque a missão a ele atribuída era a de comunicar a Maria sobre a escolha de Deus. Ele não precisava chamá-la de “cheia de graça”, ou dizer que “o Senhor é contigo”. Bastava-lhe, apenas transmitir a mensagem divina.

Mas, não. O anjo faz questão de saudar Maria como serva especialíssima, “cheia de graça”, em quem o Senhor está e em quem o Espírito Santo agirá como jamais agiu sobre qualquer outro ser humano: “O Espírito Santo” diz o anjo, “descerá sobre ti e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra”. Mas, a fala do anjo é mais profunda ainda, ao afirmar que “o Santo que há de nascer de ti, será chamado Filho de Deus”.

A esse respeito, Réginald Garrigou-Lagrange (1909 – 1964), considerado, ao lado do protestante Karl Barth, um dos maiores Teólogos do século XX, afirma que: “Enquanto que os anjos não manifestam sua reverência aos homens, porque eles lhes são superiores como espíritos puros e porque vivem sobrenaturalmente na santa familiaridade de Deus, o arcanjo Gabriel, ao saudar Maria, se mostra cheio de respeito e de veneração, pois compreendia que ela o ultrapassava pela plenitude de graça, pela intimidade com o Altíssimo e por uma perfeita pureza”[1].

Ora, os filhos dos homens são filhos do pecado, do qual só conseguem se livrar por meio do Batismo e da confissão de que Jesus Cristo é o Salvador. Jesus, ao contrário, é Santo, nasce Santo porque é Filho de Deus e porque, sua encarnação humana é concretizada em corpo absolutamente Santo. Deus jamais permitiria que o seu Verbo encarnasse em um corpo maculado pela mancha do pecado. Maria, desde antes da concepção, é isenta de toda a mancha do pecado, justamente por ser ela, exatamente como reconhecido pelo anjo, “cheia de graça”. Nela, a graça de Deus abundou mais do que em qualquer anjo ou santo, porque ela é a verdadeira Arca da Nova Aliança. Não uma arca qualquer, mas, a exemplo da Arca da primeira Aliança, ela é de ouro finíssimo, especialmente preparada desde toda a eternidade para trazer à luz o Filho de Deus, verdadeira luz das nações e salvação para todos os homens.

A natureza humana de Jesus é formada por um corpo absolutamente incorruptível, puro e limpo de qualquer mácula. Um corpo santo que, só possui estas características, a partir do corpo da própria mãe. O Verbo é divino, mas o corpo é humano e, como tal, formado e gestado a partir da vida e do sangue de Maria, de quem adquire a natureza verdadeiramente humana. Jesus, mais tarde, vai afirmar que “cada árvore se conhece pelo seu fruto; pois nem se colhem figos dos espinheiros, nem se vindimam uvas de um abrolho” (Lc 6, 44).

Portanto, a santidade e a pureza humanas de Jesus decorrem da descendência de Maria, sua Imaculada Mãe. Não sem propósito nós, católicos, não cessamos de saudá-la “cheia de graça, bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre, Jesus”.

Maria tem lugar privilegiado na economia da salvação e, justamente por estar, e por ser, “cheia de graça” e, consequentemente, cheia do Espírito Santo, ela mesma declara: “de hoje em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada”. Maria não participa da Santíssima Trindade, mas, evidentemente, relaciona-se com ela como ninguém jamais se relacionou. Em Maria, Deus age diretamente, concedendo-lhe graça especial e abundante; de Maria nasce o Salvador e, em Maria o Espírito Santo desce e cobre-a com a virtude do Altíssimo. Nela se concretiza a relação intima e perfeita entre a “serva do Senhor” e o Deus Uno e Trino.

Querer comparar Maria com uma pessoa qualquer, sem nela reconhecer a graça que o próprio anjo reconhece; sem querer chamá-la “bem-aventurada”, conforme descrito pelo evangelista Lucas, enxergando nela a figura de uma simples pecadora, como qualquer outro mortal, é, no mínimo, demonstrar desrespeito para com o próprio Deus, que jamais deixaria que seu Verbo se encarnasse em ambiente contaminado pelo pecado. Contaminado com o sangue pecaminoso que corre nas veias de todos os filhos de Adão, ainda que se queira acreditar que a descendência de Abraão é mais santa, ou menos pecadora.

Agir assim, é demonstrar, também, absoluta falta de raciocínio e de conhecimento teológico, desprezando, inclusive, as narrativas do Evangelho de Lucas, que narra o encontro de Maria com Isabel, sua prima, quando o futuro precursor – João Batista – ainda em gestação, salta de alegria no ventre da mãe, ao ouvir e identificar a voz de Maria.

Muito e muito ainda pode ser falado sobre Maria, cuja santidade ultrapassa a de todos os santos, porque não precisou chegar ao final da vida terrena para receber as graças que os santos normalmente recebem. Ela, desde sempre, é cheia de graça. Observe-se que o anjo Gabriel não afirma: “serás cheia de graça”, mas, “Salve, cheia de graça”. Ou seja, ela não receberá a graça, mas, já é cheia de graça, antes mesmo de receber a virtude do Espírito Santo. Deus cumulou-a com dignidade e com graça especialíssimas, que a nenhum outro ser vivente foram dadas. A graça a ela concedida só não é maior do que a do próprio Filho, porque é Deus.

Portanto, seria bom que os cristãos, de qualquer denominação ou profissão de fé, refletissem um pouco mais, e melhor, antes de tratar a mãe de Deus como uma simples mulher pecadora, igual a todos e a cada um de nós, verdadeiros pecadores, pobres mortais e carentes da graça do Altíssimo. Nós que somos exortados pelo Apóstolo Paulo a zelar pela santidade do nosso próprio corpo, verdadeiro templo do Espírito Santo, e a demonstrar que somos carentes da graça propiciadora da presença do Divino Espírito Santo, o que, evidentemente, e em conformidade com o Evangelho, não aconteceu com Maria que, no tempo apropriado recebeu diretamente em si a presença e a ação do Espírito Santo, pois já era, abundantemente, agraciada pelo Altíssimo.

Com tamanha graça e digna da intimidade e da familiaridade com o Altíssimo, podemos e devemos, tal qual fez o anjo, respeitar e reverenciar Maria, enxergando nela a voz que, ao lado do Filho Jesus, assim como nas bodas de Caná, clama por todos nós, pecadores e, certamente que, de Jesus obtém tudo o que pede porque Ele, mais do que qualquer outro filho, soube amar a mãe até na hora da morte, deixando-a aos cuidados do discípulo amado sem, com isso, e de forma alguma, interromper a graça com a qual Deus a premiou desde antes da própria concepção (eternamente). Portanto, reflita um pouco mais, sobre o que pensa e anda dizendo a respeito da mãe Daquele que você afirma ser o seu Salvador. O desprezo, a falta de respeito e de reverência para com ela podem ter um preço desconhecido.

____________________________________________________ [1] GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald – A Mãe do Salvador e Nossa Vida Interior. Campinas-SP. Ecclesiae: 2017. P. 58.

*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

     

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