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fev 01

TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO: UMA REFLEXÃO SEMPRE RENOVADORA

TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO - 2020

A TEOLOGIA DEVE SEMPRE SER LIBERTADORA –

Nos idos de 1985/1988 havia no mundo cristão, especialmente, no católico romano, uma verdadeira neura sobre o tema “Teologia da Libertação”. Os que eram absolutamente contrários à temática afirmavam tratar-se de tentativa de levar para dentro da igreja romana e, em decorrência, para o resto do mundo cristão, ideias e projetos umbilicalmente ligados ao marxismo e à famigerada luta de classes. Para os mais jovens, não é preciso dizer o que isto significou para os teólogos que, voluntária ou involuntariamente, arvoravam-se em falar sobre a opressão do pobre, notadamente, do trabalhador assalariado. Falar sobre as desigualdades sociais, então, era visto como estandarte comunista. A coisa ficou muito feia. A Igreja de Roma logo tratou de silenciar grande parte dos teólogos que falavam em “libertação”. Ainda é por demais conhecida a penalidade aplicada ao então frade franciscano Leonardo Boff, um dos mais expoentes mais ferrenhos e árduo defensor da Teologia da Libertação.

Hoje, no entanto, pode-se falar em libertar o pobre da opressão do capital, do consumismo, da tributação. Pode-se falar em acabar com as desigualdades sociais e o Papa Francisco, inclusive, desde a eleição, clama por uma Igreja pobre a serviço dos pobres.

Ainda que aqui ou ali, existam fanáticos que enxergam comunismo em tudo o que encontram pela frente, a verdade é que o tema não representa mais qualquer obstáculo para que a vida siga em frente, sem dramas e sem traumas.

Nesta oportunidade, vamos trazer para os nossos leitores e leitoras alguns trechos do livro “Teologia da Libertação”[1], de autoria daquele que é considerado um dos seus principais formuladores: Gustavo Gutiérrez. A edição revisada é do ano 2000 e, já no início, sob o título “OLHAR LONGE – Introdução à nova edição”, destaca que:

“Há vinte anos, os bispos latino-americanos viam deste modo o momento que se abria entre nós: “A América Latina está evidentemente sob o signo da transformação e do desenvolvimento. Transformação que, além de produzir-se com rapidez extraordinária, chega a atingir todos os níveis do homem, desde o econômico até o religioso. Isto indica que estamos no umbral de uma nova época histórica de nosso continente, plena de um de­sejo de emancipação total, de libertação de qualquer servidão, de maturidade pessoal e de integração coletiva” (Medellín, Introdução).

Nova época histórica marcada por uma profunda aspiração à liberta­ção integral. Por dolorosa (já o era em 1968) que seja a situação latino- americana, essa visão vale também para hoje. Nestes anos ocorreram fatos que mudaram a história da região, fazendo-a ultrapassar o umbral assinala­do e entrar em um processo cada vez mais acelerado.

Isto estabelece um desafio novo para quem busca inspirar sua vida naquele que “ergueu sua tenda no meio de nós” (Jo 1,14). A perspectiva da fé deve ajudar-nos a ver o que está em jogo nesta fase histórica. A esse respeito, dizia a Conferência de Medellín: “Não podemos deixar de inter­pretar este gigantesco esforço por uma rápida transformação e desenvolvi­mento como evidente sinal da presença do espírito que conduz a história dos homens e dos povos para sua vocação. Não podemos deixar de desco­brir nesta vontade, cada dia mais tenaz e apressada, de transformação os vestígios da imagem de Deus no homem, como um potente dinamismo. Progressivamente esse dinamismo leva o homem ao domínio sempre maior da natureza, a uma profunda personalização e coesão fraternal e também a um encontro com aquele que ratifica, purifica e aprofunda os valores alcan­çados pelo esforço humano” (ibid.).

[...]

Nos anos transcorridos produziu-se uma inevitável decantação nesse esforço teológico. Acolhido com simpatia e esperança por muitos, contri­buiu para a vitalidade de numerosas experiências de testemunho cristão, ao mesmo tempo que criou um interesse pela reflexão sobre a fé — antes des­conhecido na sociedade latino-americana —, inclusive em círculos inte­lectuais tradicionalmente distantes ou hostis ao mundo cristão. Críticas pertinentes e sérias também se fizeram presentes e ajudaram a amadurecer a reflexão. Por outro lado, não faltaram os entusiasmos fáceis que interpre­taram esse intento de forma simplista ou errada, afastando-o das exigências integrais da fé cristã vivida em comunhão eclesial; tampouco esteve ausen­te a previsível resistência de alguns.

As razões de tudo isso são diversas. Mais que pensar nas responsabili­dades de outros, admitamos simplesmente que não é fácil tratar temas de­licados e conflitivos — conflitivos como a realidade que queremos penetrar com os olhos da fé — e encontrar de imediato e sempre as fórmulas mais claras e equilibradas para refletir teologicamente sobre eles. Em toda linguagem há busca, por isso é necessário olhar com respeito o que outras pessoas acreditam encontrar nos escritos desta perspectiva teológica. Os leitores têm direitos que os autores não podem nem devem negar. Por isso é sempre necessário esclarecer, melhorar e eventualmente corrigir formu­lações prévias se queremos empregar uma linguagem compreensível e fiel tanto à integridade da mensagem cristã como à realidade que vivemos.

Nos últimos anos, no contexto da Igreja católica, teve lugar um impor­tante debate sobre teologia da libertação. Se no âmbito pessoal — e por causas passageiras — houve momentos dolorosos, o importante é que se tra­tou de uma rica experiência espiritual; além disso, foi um momento de profun­da renovação de nossa fidelidade à Igreja em que cremos e esperamos comunitariamente no Senhor, bem como de reiteração de nossa solidariedade para com os pobres, privilegiados do Reino. O trabalho teológico deve continuar; para isso dispomos hoje de importantes documentos do Magistério que apon­tam o caminho a seguir e de diversos modos incentivam nossa busca.

O tempo está fazendo que se veja com maior clareza o essencial e que o acessório perca a relevância que, em dado momento histórico, pareceu ter. Está em curso um processo de amadurecimento. Porém, nos últimos anos, no itinerário da teologia da libertação, não há apenas um fator tem­poral, mas também uma ampliação do espaço. Nas diferentes confissões cristãs surgiram, de diversos lados, reflexões que a partir de suas respectivas tradições assumiram a ótica libertadora inspirada na mensagem do Reino de Deus. Mais que de influências teológicas (em alguns casos claramente inexistentes no início), trata-se do impulso que provoca simultaneamente uma realidade básica de opressão e marginalização que a consciência cristã rechaça e diante da qual propõe a totalidade e radicalidade do Evangelho.

[...]

Ao falar de teologia da libertação, não podemos omitir a referência ao amplo movimento de experiências e compromissos cristãos e religiosos que ali­mentam a consequente reflexão. Contudo, nestas páginas, vemo-nos obrigados a tratar especialmente do mundo latino-americano, que nos é mais próximo e no qual se inscreve nosso amadurecimento e nossa contribuição particular.

Vinte anos depois do surgimento desta reflexão pode ser oportuno rever sua expressão e suas pegadas. Não pretendemos reescrever textos como os deste livro a partir de nossas preocupações e perspectivas atuais. Mas cremos ser importante e útil destacar os pontos que nos parecem mais im­portantes, buscar as interpretações equivocadas, precisar e revisar formula­ções que hoje não consideramos adequadas, deixar de lado o que está ultrapassado e indicar alguns dos novos e promissores temas em que houve avanço nos últimos anos. A tarefa é grande, já se iniciou e está em curso; interessa- nos, aqui, esclarecer seus pontos relevantes.

A “nova época histórica” de que fala Medellín continua sendo o con­texto vital da América Latina. Trata-se, em termos bíblicos, de um kairós, um tempo propício e exigente de interpelação do Senhor, no qual somos chamados a dar um testemunho muito preciso. Nesse kairós, os cristãos estão experimentando um momento tenso e intenso de solidariedade, de reflexão e de martírio. Esse marco estimulante e imediato nos permite retomar e aprofundar o que há tempos consideramos os três pontos fundamentais dessa linha teológica: o ponto de vista do pobre, o que-fazer teológico e o anúncio do Reino de vida. Sobre cada um desses tópicos gostaríamos de indicar o que há de permanente, as contribuições recebidas, o amadureci­mento próprio do tempo e a consequente evolução de ideias que se produziu na perspectiva teológica em que nos situamos.”[2]

CONTINUA EM BREVE

______________________________________________________ [1] GUTIÉRREZ, Gustavo [2] Op. Cit. Págs. 11-15.

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