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nov 02

UM DIA ESPECIAL: POR QUE CHORAR POR QUEM PERMANECE VIVO

DIA DOS MORTOS

QUE MORTOS CELEBRAIS NO DIA DE HOJE?

*Por L. A. de Moura –

O evangelista Lucas narra que, no primeiro dia da semana, após a crucificação e morte de Jesus, o Cristo, algumas mulheres foram ao sepulcro, levar “aromas que tinham preparado”, a fim de reverenciar Aquele a quem tanto amavam. Ao chegarem lá, encontraram removida a grande pedra que fechava a entrada do túmulo. Logo, caíram em desespero e choravam, lamentando o desaparecimento do corpo do Senhor. Lucas nos conta que, naquele mesmo instante, dois homens com vestes resplandecentes, aproximaram-se das mulheres e perguntaram: “Por que buscais entre os mortos o que está vivo? Ele não está aqui, ressuscitou”, recordando-lhes as palavras de Jesus, quando contou aos discípulos tudo o que estava para suceder ao Filho do Homem (Lc 24, 1-7).

É sabido que, todos os anos, no dia 02 de novembro, é celebrado o dia dos finados, ou seja, o dia dos mortos. Neste dia, todos os anos, impreterivelmente, milhares de pessoas, talvez milhões delas, dirigem-se aos incontáveis cemitérios, mundo afora, para prestarem reverência aos entes queridos e amados que, um dia, estiveram fisicamente por aqui, entre nós. São levadas flores, velas e outros objetos, cuja intenção é demonstrar carinho, saudade e consideração por aqueles cujos restos corporais estão, ali, sepultados. Muitos, oram em voz baixíssima; outros, com a voz um pouco mais alterada; outros, ainda, choram profundamente sobre aquelas lápides pesadas, a lamentarem a perda irreparável. São gestos bastante normais e, independentemente da religião professada, o respeito é mútuo.

Entretanto, a pergunta que os dois homens fazem às mulheres diante do sepulcro de Jesus é muito pertinente, ainda nos dias de hoje: por que as pessoas choram e lamentam aqueles que não morreram, mas, simplesmente, fizeram a travessia para uma outra etapa da existência? Por que lamentar, pergunto eu, se, de fato, acreditamos, muitos de nós, na palavra de Jesus, que disse: “Eu sou a ressurreição e a vida; o que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá”? (Jo 11, 25).

Ora, se acreditamos na palavra de Jesus, se realmente acreditamos, devemos ter consciência de que aqueles pelos quais choramos, não estão mortos, mas, vivos em outra dimensão do Universo criado por Deus, pois, o mesmo Jesus afirmou: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, eu vo-lo teria dito. Vou preparar o lugar para vós. Depois que eu tiver preparado o lugar, virei novamente e tomar-vos-ei comigo para que, onde eu estou, estejais vós também. E vós conheceis o caminho para ir onde eu vou.” (Jo 14, 2-4). E, quando alguém O interpela dizendo, não sabemos nem para onde tu estás indo, como saberemos o caminho?, Ele responde: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”.

O Profeta Isaías afirma que "Ninguém ouviu, nenhum ouvido percebeu, nem nenhum olho viu, exceto tu, ó Deus, o que tens preparado para os que esperam em ti" (Is 64, 4).

Bem, para aquele que tem fé, para aquele que crê nestas palavras, não existe motivo de lamentação por saber que o seu ente amado está vivo, em uma das moradas existentes na casa do Pai, e na companhia de Jesus. Então, é legítimo perguntar, por que chora? A resposta parece fácil de ser encontrada: choramos em razão do apego que temos à matéria. Quando perdemo-la, caímos em profundo desespero. Desespero causado pela nossa falta de fé, de confiança, de certeza e de convicção de que Jesus realmente existe e promete a vida em plenitude a todos os que Nele creem. Choramos, em razão dos remorsos que, em muitos casos, temos pelo que fizemos ou deixamos de fazer por aquele ser amado, enquanto caminhante por este mundo, lado a lado conosco, ou mesmo na direção oposta a nós. Choramos por causa de sentimentos profundamente humanos, como saudade. Saudade daquele ou daquela que partiu desta vida para a outra, como vulgarmente costumamos dizer – ainda que não creiamos de fato no que dizemos – e que está vivo ou viva, aguardando a nossa chegada que, impreterivelmente, acontecerá em dia e hora marcados. Choramos, enfim, porque não conseguimos compreender a lógica da vida. Uma vida que, tal qual o trem, vai de estação em estação, até chegar no ponto inicial, de onde poderá partir novamente.

Talvez, o dia dedicado aos mortos fosse o dia ideal para repensarmos a nossa existência neste mundo. Um dia para refletirmos sobre tudo o que temos feito, ou deixado de fazer, para que nossa travessia que, inegavelmente, acontecerá, ocorra da maneira mais suave, serena e santa possível. É preciso nunca esquecer daqueles dois homens que, sentados em uma mesa de bar, bebem sem parar. Um deles, conhecedor dos seus próprios limites e consciente de que deve voltar para sua casa, em dado momento, levanta-se, paga a conta e sai caminhando normalmente, na direção do seu lar. O outro, porém, embriaga-se tremendamente e, recusando a ideia de retornar para casa, é enxotado do bar, jogado para fora à força porque, para ele, chegou a hora da partida, aceitando ou não; querendo ou não. Assim sucede a muitos de nós: apegados ao mundo, aos prazeres, aos bens e às riquezas, ao poder e à vidinha que aqui levamos, rejeitamos a ideia da partida que, de bom grado ou não, chegará para nós também. Será muito melhor estarmos bem preparados para que, na hora fatal, possamos seguir em frente, com a alma serena, rumo à morada que já está preparada para cada um de nós.

Por esta razão, é louvável que, no dia dedicado aos mortos, nós, viventes, tomemos consciência de que nossos entes queridos e amados, na verdade, continuam vivos, em outra dimensão e que nós, sim, é que precisamos de velas e de flores, para iluminar e ornamentar a nossa caminhada. Precisamos, talvez, de lágrimas e de orações, em razão de tudo o que temos feito ou deixado de fazer pelas demais criaturas, ou mesmo contra elas, que também foram beneficiadas com o dom da vida, pelo Criador.

Sugiro a você que, nesta data, ou a partir dela, repense a sua vida. Recorde tudo o que foi vivido até aqui, promova as correções que entender serem necessárias e, por fim, vá se preparando, sem lástimas ou lágrimas porque, no dia e hora marcados, o portal de passagem para o outro lado será aberto, e será muito bom se você puder atravessá-lo de bom grado, alegre, feliz e plenamente consciente de estar seguindo para a próxima estação. Porque, caso se recuse a fazê-lo, assim como o bêbado, será arremessado para o outro lado mesmo a contragosto.

Eu, da minha parte, continuo caminhando, mas, sempre atento e focado no meu destino: velas, flores, orações, lágrimas, arrependimentos e correções fazem parte do meu arsenal de caminhante porque, na hora em que o portal for aberto para mim, pretendo seguir confiante, acreditando sempre Naquele que prometeu a vida eterna a todo o que Nele crer. E, sinceramente, espero que ninguém fique, por aqui, chorando, lamentando, acendendo velas ou colocando ramalhetes sobre o túmulo no qual, e em verdade, ficarão guardados os restos de quem não estará mais nesta estação. Pare de chorar por quem está plenamente vivo. Enxugue todas as lágrimas e mude o foco das suas lamentações. Seja feliz, e boa sorte!

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*L. A. de Moura é estudante de Filosofia, estudioso da Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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