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jun 01

UM POUCO DA NOSSA HISTÓRIA

TIRADENTES - 2019

TIRADENTES (1748-1792) - UM HERÓI DE VERDADE - 

Fala-se hoje, por todo o País, em liberdade, em democracia, em justiça social, em prisão dos culpados disso ou daquilo. Alguns chegam mesmo a visitar o cárcere por um curto período e, dependendo da “patente”, logo vem um alvará de soltura, mandando-o para casa, cumprir o restinho de uma pena pequena e injusta. Injusta, não porque tenha sido lançada sobre inocente, mas, porque a culpa é vergonhosamente grande. Verdade é que, entre grandes e poderosos, ricos e famosos, ocupantes das cadeiras mais ilustres nas assembleias e nos palácios, dificilmente pagam por seus delitos. Até porque, tais delitos parecem possuir pernas, e andam sempre na direção de gente de menos importância.

Falar assim, pode parecer ao estrangeiro, em visita às nossas terras, que o Brasil sempre foi assim: conivente com os malfeitores de plantão e, sempre em nome de um pretenso direito de ampla defesa, facilitando a fuga dos culpados por entre a floresta de malfeitores. Mas não, houve tempo entre nossa gente, que não existia democracia; não existia liberdade e a justiça era realmente cega, não livrava a cara de ninguém, fosse quem fosse, tivesse a patente que tivesse. Porque em tal época, éramos colonos. Plantávamos, criávamos e garimpávamos para nossos colonizadores. E ai daquele que ousasse se rebelar.

Em tal tempo, viveu em terras brasileiras, lá pelas Minas Gerais certo homem que exercia função na cavalaria, embora fosse de humilde cepa. Sobre ele não quero falar de voz própria, para não menosprezar o trabalho de ilustre historiador, um dos maiores na História do Brasil: Rocha Pombo que, em obra de cinco volumes, vai até as raízes do descobrimento e caminha páginas e páginas acima, trazendo para nós informações valiosíssimas. O homem da cavalaria e das Minas Gerais é Joaquim José da Silva Xavier, conhecido por Tiradentes, e sobre ele Rocha Pombo afirma ser cidadão:

“nascido nas Minas, um tipo singular de criatura que vem para o mundo numa grande ânsia de tomar o seu papel. A condição modesta em que se sentiu ali, no meio da riqueza, foi-lhe estímulo forte nos primeiros passos da vida; e bem cedo, as lutas em que entra, só amparado da sua nobre e excelente natureza moral, devem pô-lo no caminho por onde iria ao sacrifício. As desilusões começaram para ele quase que logo ao sair da infância. Pensara primeiro em fazer-se pelo comércio, e não se sabe como é que os desastres não o induziram logo a tornar-se, em vez de apóstolo, bandido. Não se sabe com quem aprendera, ou onde, semelhante arte, mas era dentista habilíssimo, e gostava muito de aliviar os males humanos com alguns conhecimentos que tinha de terapêutica indígena. Nas suas viagens pelos sertões das Minas tivera ensejo de ver o estado de miséria em que viviam as populações; e isto havia de servir-lhe muito mais tarde na propaganda do seu ideal. Tão mal sucedido no comércio, entendeu que seria mais feliz na profissão das armas, com a qual se desse melhor talvez pela sua austeridade e pelo profundo sentimento do dever. Mas, filho da terra, que futuro podia aspirar como soldado?

Chegou ao primeiro posto na sua companhia; e daí por diante, porém, foi vendo que os mais moços, e os que menos provas davam de si nas diligências mais difíceis, iam galgando os outros postos, enquanto que ele andava sempre sendo preterido. Ainda na vida militar, mas já desvanecidas as esperanças que nutrira, procurou outras veredas, metendo-se na lavoura e na mineração, sem mais fortuna, no entanto, do que tinha tido ali. É de crer que por este tempo já o seu espírito andasse impressionado de tudo que via ali nas Minas; mesmo que não pensasse propriamente em fazer da capitania uma república (para o que aliás já havia a instigá-lo o que tinham feito os americanos do Norte), o que se pode admitir é que já estava convencido de que o Brasil não podia por mais tempo sofrer aquele regime que lhe impunha a metrópole.

Sente-se que, na ansiedade em que tem vivido, a alma se lhe dilata agora para surtos de mais audácia. Já conhecia ele o Rio, e conservava ainda vivas as impressões que lhe haviam causado a capital da colônia. Sendo um centro mais vasto, acreditava que por aqui ser-lhe-ia muito mais fácil encontrar meios de pôr em ação o seu espírito empreendedor. O que ele procura, no entanto, agora não é só a sua fortuna pessoal; nunca teve aliás, a dirigi-lo na vida, uma exclusiva preferência pelo seu próprio interesse: tinha mesmo fama de abnegação e desapego de bens materiais, ao ponto de ser tido, senão como descuidoso, pelo menos como indiferente ao bem estar, nunca revelando açodamentos ou impaciências por adquirir. O que ele deseja agora é habilitar-se a ter uma parte mais ativa, entrar com um concurso mais eficaz na obra que há de fazer-se lá na terra das Minas. É este o pensamento que o absorve, quando toma caminho, para o Rio, por meados de 1788 (ou talvez antes) depois de haver alcançado do Governador da capitania a necessária licença.

Vinha radiante de esperanças; e assim que chegou aqui, apresentou-se ao Vice-Rei; e sem dar muito pela indiferença com que o recebera Luiz de Vasconcelos, passados alguns dias, foi levar-lhe umas propostas de melhoramentos que projetara fazer na cidade. Parece que o Vice-Rei não deu importância ao que lhe requeria aquele simples alteres, que não dispunha de recursos, nem de valimento para obras de certa monta, e que parecia mais um maníaco, meio estouvado, meio aventuroso, do que um legítimo especulador ou homem de negócios a quem se devesse dar atenção. Em todo caso, sempre entendeu o Vice-Rei que não havia motivos para deixar de remeter os papéis do requerente para a Corte. Pelo que parece, em Lisboa tomou-se mais a sério o que se propunha o visionário executar; tanto assim que o Conselho Ultramarino devolveu os papéis, a fim de que sobre a matéria deles informasse o Vice-Rei.

Enquanto se ocupava destas coisas, demorando-se aqui muito mais tempo do que calculara, não perdia ensejo de ir sondando os ânimos com muita prudência. Estava ainda no Rio, e havia já muito tempo, quando passou para Minas o visconde de Barbacena. Uns três meses depois (em Setembro de 1788) aqui se encontrava Tiradentes com o Dr. José Alves Maciel. Este moço era mineiro; havia-se formado em ciências naturais na Universidade de Coimbra; e vinha agora de visitar a França e a Inglaterra. Pensa-se que, entre os estudantes brasileiros de Coimbra, era ele dos mais exaltados em advogar a ideia da independência; e até se diz que “era ele um dos dois emissários mandados à Europa (pelos patriotas do Rio e de Minas), e que enquanto Joaquim da Maia conferenciava com o embaixador americano, ia ele, Maciel, sondar a disposição dos ingleses a nosso respeito”. Trazia o jovem Dr. Maciel a cabeça “cheia de ideias democráticas, que lhe inspiraram os admiráveis progressos da nova República do Norte”; e era bastante haver, como brasileiro, vivido algum tempo em Portugal, para não sair dali dominado de outros sentimentos. Ê fácil imaginar o que se teria passado entre aqueles dois corações, incendidos da mesma fé, arrebatados dos mesmos ímpetos, um falando das misérias da terra, outro das grandezas que vira no estrangeiro.

Seguiu o Dr. Maciel para Minas, deixando no Rio o Tiradentes cada vez mais inflamado, tendo agora novo estímulo e coragem, que lhe valera o imprevisto encontro com aquele patrício. Vai o Dr. Maciel ter na própria terra as provas de quanto lhe dissera Tiradentes. Os povos da capitania estavam todos como num grande alarme: a situação em que se vive ali, de longos anos, agora parece que vai tocar ao seu extremo. Viera o visconde de Barbacena encarregado especialmente de reparar os prejuízos que desde muitos anos vinha sofrendo a real Fazenda, e trazia ordens formais de arrecadar, por meio de derramas e execuções, todas as dívidas em atraso. O enorme ativo acumulado punha já os contribuintes, e demais devedores ao erário, em condições de absoluta insolvência. Só o quinto do ouro ascendia a perto de 540 arrobas (na importância de 3.305:472$000). As dívidas provenientes do contrato das entradas montavam a réis.... 1.702:148$000; e fazia-se notar, nas instruções dadas a Barbacena, que tais déficits se vinham acumulando quase que na mesma razão em que se reduzia o preço das arrematações. Do contrato dos dízimos, outra renda que diminuía de ano para ano, o alcance era de 717:906$000. Importava, pois, a dívida em atraso, só destas três classes de contribuições, que eram as fontes mais abundantes do patrimônio régio, em um total de 5.725:526$000. De tudo isto fazia-se uma grande carga à desídia dos agentes do fisco. Em tom consternado, depois de tudo isso expor bem explicitamente, dizia o ministro que não era possível ver sem indignação que S. M. mandasse estabelecer em Minas-Gerais uma Junta, com a qual faz uma importante despesa, sem outro algum fim mais que o de cuidar da boa administração e arrecadação da sua real Fazenda, e que, em lugar desta impreterível obrigação, só cuide a dita Junta nos particulares interesses de seus afilhados ...

Logo que foi empossado do governo, cumprindo fielmente as ordens que trazia, convocou Barbacena a Junta de Fazenda, e leu aos deputados a parte das instruções que se referia à arrecadação de impostos.”

CONTINUA EM BREVE

_________________________________________________________________   Fonte: POMBO, Rocha. HISTÓRIA DO BRASIL. Vol. III. São Paulo: W.M. Jackson Inc. Editores. 1947. Págs. 215/217.    

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